Mesa-de-cabeceira: Armando Silva Carvalho/Maria Velho da Costa, Alfred Stieglitz e Gisela Cañamero

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa - O Livro do Meio (Caminho, 2006)

"(...) Mas chove. São seis e meia da tarde. Chove e a terra está contente. A terra do meu quintal e a da pátria, que a esta hora do ano ainda não arde.
   Tenho uma rosa branca na mesa de trabalho revisitada, rosa que não cessa de murchar (de facto, não é metáfora de qualquer tenacidade), vejo o céu que passa de azul fosco a azul tinta (idem) por cima dos telhados dos remediados vizinhos, remediada também eu. Os gatos, macho e fêmea, dormem, pretos, num sofá preto, na sala. A cadela, ainda mais preta, porque reluz de muito jovem, dorme com eles. Não tenho fome, não tenho frio. Que mais quero?
   O pior, Armando, é que amanhã é outro dia.
 A vizinha da frente acendeu a luz na cozinha de contraplacados. Tem oitenta anos, não é viúva, nem desgraçada. Baixou agora o estore.
   Eu também."


(in O Livro do Meio, p. 18)




Livro desconcertante, que desafia o leitor a cada passo. O Livro do Meio foi escrito a meias por dois dos maiores escritores de língua portuguesa, Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa. Catalogado como romance epistolar, no resumo do livro pode ler-se que isto é uma correspondência que ocorreu em 2006 entre os dois autores, cúmplices há vários anos, vertendo memórias no papel, mas rapidamente se perceberá que nada aqui é o que parece. Teia intrincada, esta obra assume um diálogo directo com outra de nome Les Liaisons Dangereuses, de Choderlos de Laclos (1782). O processo lembra também, por vezes, as Novas Cartas Portuguesas (1972), livro inclassificável escrito a três mãos (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa). Tal como esta última obra, O Livro do Meio foge a qualquer tipo de categorização fácil, com a autoria dos textos a ser igualmente difusa. Os capítulos contêm datas mas nunca aparecem assinados, com os discursos das supostas cartas entre os autores a mesclarem-se de um carácter dúbio constante, não existindo alternância linear entre quem escreve, nem sequer uma forma fácil de identificar cada entrada. A única pista está na invocação (na primeira pessoa) dos géneros feminino e masculino no corpo dos textos. Aos poucos o leitor consegue descortinar, entre outras coisas, as origens díspares dos autores (Armando Silva Carvalho vinha de um meio rural, Maria Velho da Costa de um meio citadino), com algumas das entradas a focarem-se nas memórias desses tempos, das casas onde cresceram.

   "(...) Por mim, que chegou a altura de entrar nesta comédia de primeiras entradas, direi: louvado seja o que em soneto me deu o tom da desgraça cósmica para me desviar da invocação do tema em forma realista. Não solto imprecações, não exijo monstros, não quero que chova sangue. O dia em que nasci não torna mais ao mundo. E nem haverá eclipse, nisto manda a ciência e não o estro do lírico.
   A minha mãe pariu-me três meses antes que a tua se decidisse. Respeita-me essa diferença. Aqui sou o mais velho. Nas aldeias havia nesse tempo as curiosas do parto, comadres de todas as mulheres. Ainda conheci a que me limpou e quebrou o cordão umbilical. Era uma mulherzinha curva, tinha a sabedoria nas mãos, dizia a minha mãe que, aliás, nunca me deu nada de preciso nas minhas precisões de nascimento."


(in O Livro do Meio, p. 106)

Outra das características que salta de imediato à vista é a velocidade quase torrencial da escrita. E nesse dilúvio das palavras, a qualidade do conjunto intercala a frontalidade de certos excertos com elegância noutros, para um encadeamento de pensamentos e frases que se sente tão natural como bem escrito. Promessa de um relato íntimo entre os dois escritores, da partilha de memórias, com os registos fotográficos na capa e no interior do livro de ambos quando crianças a sustentarem essa teoria, lentamente se perceberá que isso é outra parte do desafio, do labirinto que se encerra nestas páginas. Gradualmente, a fragilidade da fronteira entre o que é real e ficção assume um carácter de peso. Há, de forma deliberada e até irónica, uma provocação ao leitor, convocando-o para um papel activo na hora de ler o texto. Um leitor passivo dificilmente retirará prazer deste livro.

   "Descarnavalizemos isto, também. A pendência à carnavalização, à sátira, à via cínica, já nos foi apontada por gente de bom porte, ora como mácula, ora como competência. Tu já começaste a contrariar o Entrudo, com a intromissão do teu verso, que pede chuva. Deixa-o chover, chorar o massacre dos cisnes, a sua graça. Pardais e gaivotas safam-se sempre, os robustos predadores. Este ano não há andorinhas para ninguém.
[...]
   O leitor comum também é órfão. Não nos adianta nada, mas é bem feita. Há-de morrer a saber menos do que quando nasceu."


(in O Livro do Meio, pp. 30-31)

O uso do discurso na primeira pessoa pelos autores é aqui uma técnica deliberada de iludir o leitor, de adulterar a sua percepção do real, aparentando comunicar directamente com ele. O leitor transforma-se em cúmplice, em voyeur, em parte activa da narrativa congeminada pelos autores. Como será óbvio, esta é uma técnica que muito me apraz ou não o fizesse constantemente na minha própria escrita. Esta desestabilização do real por parte dos autores chega ao ponto de discutirem e de se questionarem a si próprios nas primeiras páginas sobre o tom a empregar no livro, ou sobre a própria tipologia textual, deixando o leitor espreitar por uma janela íntima ilusória que lhe permite acompanhar a suposta concepção e escrita destas cartas e do próprio livro. A intertextualidade, com a referência constante a outras obras e autores, ou os discursos ocasionais em diferentes línguas, baralham ainda mais toda a nossa percepção, exigindo uma atenção particular. Um leitor comum, com tudo o que essa definição acarreta de relativo, dificilmente retirará prazer deste livro.

   "Da Póvoa do Varzim, como tu escreves, também escreve e fala o Raul Brandão que diz que a poveira era a bem dizer um homem, feia e rude, pernas como trancas, que às vezes se atirava para dentro das lanchas, obrigando o homem a arrostar com o temporal.
  E com ele continuo, nestas paragens, onde os seus olhos, já de si sonhadores, se tornavam mais impressionistas com a poeira do mar misturada à poeira azul do céu. Peniche, afinal, não é horrível. […] Hoje, tudo aqui é turismo e cimento armado, e não é a gente morena que terminada a vindima e recolhido o mosto nas cubas vai, com as mãos ainda tintas do cacho, apanhar a sardinha que salta ao lume de água, a sarda e a moreia, ou com o bicheiro fisgar os polvos que se escondem nas pedras.
"

(in O Livro do Meio, p. 299)

Há que escavar o pleno sentido do texto, por vezes, até para descortinar as muitas pessoas de que falam os autores quando as enunciam usando apenas as iniciais do nome. Para dar um mero exemplo, surge no livro uma referência recorrente: “a M. G.”. A dada altura é mencionado o filme Veredas de João César Monteiro com “a M. G.”. Investigando um pouco a ficha técnica percebe-se não só que estarão a falar da actriz e realizadora Margarida Gil, como passamos a saber que Maria Velho da Costa é uma das autoras do texto desse filme de 1978. Camadas e camadas de significados a espreitar nestas mais de 400 páginas.

   "Não ouve música ou noticiários. Lê. Olha. Hoje não há empregada e a Velha Rapariga inquieta-se se duas vezes por semana não serão já demais. Força-se a olhar de novo, não força quase nada, a ponderar as suas bênçãos. O pequeno quarto, à escala da pequena casa. Já lhe disseram, de várias boas mentes e das más, que vive numa casa de bonecas. E ela diz, o que não é bem verdade, que se sente como a Alice de Carrol, quando toma a poção que a faz enorme e sair-lhe o corpo pelas aberturas da casa, a cabeça pela chaminé, braços e pernas por janelas e porta. Não é nada de tão angustioso. A casa tem para a Rapariga Velha a dimensão carinhosa do abrigo possível e grato. Poderá carecer de espaços mais amplos, enlanguescer em mais nobreza de pé-direito e jogos de luz de sacada aberta, poderia. […] A Velha Rapariga também se ri sozinha. A pequena casa é de fundo risonho."

(in O Livro do Meio, p. 41)

Obra ambígua, engenhosa, difícil, O Livro do Meio ludibria-nos com a sua reinvenção da memória, a promessa de confissões quotidianas onde até não faltam múltiplas intrigas relacionadas com os meios literário e académico (cáusticas e algo surpreendentes), ou momentos de auto-ironia e sarcasmo. Esse olhar indiscreto e a provocação constante dos autores ao leitor são dois dos motivos que nos levam a querer ler mais e mais, mesmo que nem sempre consigamos acompanhar tudo o que se passa. Provavelmente, o que aqui relatei ao longo destes parágrafos assustará o leitor mais incauto, mas o melhor será tirarem as vossas próprias ilações lendo a obra, ou até um excerto dela. O livro estar actualmente à venda na editora, ou na Wook ou Fnac por apenas 3€, é um convite adicional à exploração.

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Alfred Stieglitz - Camera Work: The Complete Photographs (Taschen, 2008)

Organizada pelo fotógrafo americano Alfred Stieglitz, a publicação Camera Work foi uma revista essencialmente dedicada ao trabalho do movimento fundado por Stieglitz, Photo-Secession. Focado nas possibilidades criativas ligadas à fotografia e em promove-la como uma forma de arte tão válida como a pintura e outras, esse movimento do início do século XX centrava-se no que se veio a chamar de fotografia pictorialista. A estética particular desse tipo de fotografia advém da ideia de que o importante era a manipulação da imagem para chegar a uma visão subjectiva idealizada pelo artista e não meramente a recordação em bruto de um momento captado pela máquina fotográfica. Não é por mero acaso que, na sua maioria, as fotografias deste movimento e estética se assemelham a quadros. Familiar? Provavelmente, para quem vai acompanhando o que partilho, apesar da possível influência ser inconsciente já que desconhecia de todo o movimento e estética quando comecei a trabalhar na área da fotografia.



O primeiro número da Camera Work surgiu em 1903, tendo durado até 1917. A revista tinha um grande foco na parte visual, com as impressões fotográficas a serem de elevada qualidade. O que este livro nos traz é uma compilação de todas as fotografias que apareceram nos 50 números da revista. Sendo uma edição da Taschen, a qualidade das impressões é boa, a que se junta o preço acessível (entre 11 e 20€) para uma publicação deste género com quase 600 páginas.



Muitos dos trabalhos que poderão encontrar aqui são de artistas de culto, entre eles: Edward Steichen, Robert Demachy, Frank Eugene, Gertrude Käsebier, Clarence H. White, Julia Margaret Cameron, Alvin Langdon Coburn, Paul Strand, o próprio Stieglitz, entre outros.



A atmosfera das fotografias faz com que o tempo pare enquanto folheamos o livro. O todo é onírico, quase inocente por vezes, profundamente artístico, servindo o propósito adicional de documento importante de uma época. Podem encontrá-lo facilmente, ainda, em lojas online como a Wook ou a Fnac.



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Gisela Cañamero - Um Mosquito num Voo Baixo (Companhia das Ilhas, 2018)

"o país sabe menos de ti
que os pássaros de sua pátria.

o que eles voam para regressar
— como uma pedra aterrando por gosto
na placidez da terra.
mas os pássaros, meu amigo, estão vivos.

a ti só te receberão sem incómodo
quando estiveres realmente morto."


(in Um Mosquito num Voo Baixo, p. 17)





Com o subtítulo Um poeta na Revolução, o novo livro de poesia de Gisela Cañamero traz consigo uma temática muito diferente da obra anterior da autora, o magnífico Poderia a Poesia.

Em Um Mosquito num Voo baixo estamos perante o poeta como sujeito maldito, incómodo para a sociedade, como atesta a seguinte descrição na página da editora: "Apanhados pelo clima duplamente hostil da Rússia entre duas Grandes Guerras, iludidos, traídos, perseguidos ou trucidados durante a Revolução Bolchevista por exercerem a mais temida actividade, os escritores e poetas russos foram, sobretudo, alvos a abater sob o regime estalinista." Mais adiante, diz-se que se pressentem nestes versos as sombras de Boris Pasternak, Osip Mandelstam, Alexandr Blok, Vladimir Maiakovski, Nicolai Gumilev, Serguei Iessienin.

E neste momento, antes de entrarmos um pouco mais nas palavras, no silêncio que perscruta a luz destas páginas, poderíamos interrogar-nos sobre como são encarados ainda hoje os poetas, os actores e as mais diversas actividades ligadas a áreas criativas (fotografia, design, cinema, o que quiserem) e à cultura. É certo que em Portugal não se vivem hoje tempos negros de perseguições, prisões e assassinatos, mas desengane-se quem acha que a sociedade, em geral, encara tais actividades como sérias e válidas como qualquer outra, ou que a mesma acredita poderem desempenhar um papel importante no país. E sim, quando digo em geral, refiro-me a números, a uma estatística que forma uma maioria cujo pensamento gira à volta "de essas pessoas todas serem uns parasitas que não servem para nada, muito menos deveriam receber dinheiro algum pelo que fosse porque se limitam a passar a vida a brincar ou a fazer uns rabiscos. Alguns até querem ser pagos por desenhar uns bonecos, como ousam!?". A realidade é esta. Todas as pessoas desfrutam a qualquer hora de algo criado por um desses vulgos parasitas (mesmo para lerem estas palavras, seja onde for), mas raramente chegam sequer a essa conclusão ou a ver a coisa por esse prisma. E é nesta infeliz realidade, se o poeta ou outro sujeito subversivo assim o entender, que iniciativas, obras ou versos, podem ser encarados, pensados e convocados a desempenhar um papel de agentes disruptivos. Os versos podem fazer jorrar sangue onde antes residia uma massa amorfa coagulada sem vontade de mudar o que quer que seja, podem parar o tempo, podem acelerá-lo, podem dar vontade a alguém de contestar o sistema, o pensamento vigente.

“Não me forceis a uma vida razoável.”
(de uma romanza russa)

A epígrafe que inicia o livro dá o mote. É logo aqui que ele retém a nossa atenção. Um pequeno livro apenas no número de páginas, 40, mas com toda uma vida lá dentro. Ou vidas, se quisermos ser mais exactos. A cadência particular dos versos volta a marcar presença nesta obra, a voz inconfundível da autora desnuda nas folhas que os dedos abraçam. A musicalidade do ritmo lembra-me o meu próprio, afinidades que não se explicam, sentem-se.

"que maçada excitar a realidade
trazer a vida nas entranhas

incendeia-te a floresta nos lábios
essa floresta onde recolhes
palavras ébrias de dedicação
crias a música das palavras nos passos largos
o ritmo em solavancos     com o agitar dos braços
pisas as raízes como o filho
que reconhece a mãe

também sob as pedras

um céu inteiro se te oferece
e o vento     o vento que recebes
em firmes pancadas
na face estupenda
acrescenta o vigor à vontade
de agir     por convicção,

convictamente se diga
que o fogo que te consome agora
será a cinza dos teus amanhãs."


(in Um Mosquito num Voo Baixo, p. 9)

Maravilhoso. Como não pensar isso quando acabamos de ler o poema acima, ou outros presentes no livro? Editado com uma pequena tiragem de 100 exemplares pela Companhia das Ilhas, editora independente sediada na Ilha do Pico, Açores, Um Mosquito num Voo Baixo apresenta-se numa edição curiosa, como já acontecia com Poderia a Poesia, apesar de substancialmente diferente. Inicialmente o livro aparenta ser um pequeno caderno agrafado num formato semelhante e muito apreciado por outras edições independentes, mas pegando nele não só verificamos que o acabamento é muito cuidado, como na capa e contracapa podemos encontrar badanas com informação sobre a autora e a colecção de poesia da editora, o que não é costume em edições deste género. Já o preço, 10€, pode assustar. Mas quanto vale um poema, ou a poesia? Sem esquecer que não estamos perante uma grande editora com meios para fazer uma tiragem de várias centenas ou milhares de exemplares que permita a redução dos custos de impressão e outros.

"agora que te aceitaram nos salões
e que cheiras a tranquilidade à distância
é com descaro que provocas
o decoro
de vidas tão arrumadas
com palavras cuspidas
do machado de uma qualquer vingança.

tremem as porcelanas à passagem
do teu passo afoito
e
ainda que te divirtam os espíritos sensíveis
ainda que reconheçam os rivais
o teu génio
não darás à seda dos cadeirões
as claras palavras do teu sofrer.
(...)"


(in Um Mosquito num Voo Baixo, p. 22)

E é desta forma que o silêncio surge, lendo versos como estes, as palavras desaparecendo em nós. Elas estão ali, no papel, são essas que devem ser escutadas, não as nossas. Não neste momento. Para adquirirem o livro, podem fazê-lo através da editora, ou procurando numa das livrarias indicadas nesta página da editora, na Fnac, ou na Wook.