Escolher o nosso ruído: manifesto de sobrevivência

Quantas vidas já vivemos? Algumas certamente. No próximo ano este espaço fará vinte anos. E nele já couberam muitas histórias, muitas palavras, música infinita, muitas vidas. Se a início existia uma clara inocência, uma exposição sem pruridos – pequena chama em bruto a tentar descortinar por onde incendiar o seu potencial –, com o tempo adensou-se a neblina, o caos ganhou outra forma. Um pequeno blogue transformado em portal de partilhas assente na falta de misericórdia para quem vive na pressa de nada.

Já aqui falei de algumas razões para o abrandar significativo de partilhas e publicações nos últimos anos. Vejo padrões, observo, tiro conclusões, decido pela minha cabeça. Escolhi não contribuir para o ruído dos algoritmos e do dia-a-dia. No entanto, no ano passado senti uma viragem, um sinal de promessas invisíveis, um pequeno rugir interno de resistência, intrínseco a cada pessoa. Pouco depois, no meu aniversário em Setembro aconteceu um reencontro feliz de amigos de longa data, alguns sem nos vermos ou falarmos há anos. E desde essa altura tentei também enviar mensagens ocasionais a outras pessoas, mesmo se já passaram perto de dez ou vinte anos desde o último contacto. Troca de palavras ocasionais, um eventual café. Estamos vivos e não esquecemos, pequeno gesto.


Isto a propósito de alternativas, como combater este ruído sufocante do presente? A resposta, mera opinião, poderá estar precisamente em retribuir com outro tipo de ruído. Não é um acaso (nada é aqui) o surgir gradual de mais partilhas neste espaço e noutros territórios. E, como sempre, sem concessões e frisando algo já notório no passado. A diferença de conteúdos em cada local e a recusa do efémero, do défice de atenção. As publicações no Facebook não são as mesmas do Instagram, várias sendo exclusivas dessas redes e outras, as deste espaço obrigam a uma pausa e complementam-se com as de outros destinos. Não faço reels, stories e derivados, tal como muito raramente clico em algum. Sei, sou um chato. Não sou comentador, especialista de nada a analisar os assuntos do dia. As pessoas não precisam de mais do mesmo, constantemente. E, sendo honestos, elas não querem saber. Valha-nos os gatos, sempre eles.

Longe de mim pensar ser um caso isolado. Mais pessoas estão a percorrer este caminho, do ruído alternativo. Há quem partilhe poemas em fluxo ininterrupto, fotografias de artistas e de momentos bonitos na natureza, pinturas suas, imagens e excertos de filmes, música. Não se pense com isto estarmos desatentos ao nosso redor, às notícias, ao chamado mundo real. Na verdade, estamos é saturados dele, da maré de mesmice. Podemos ser mais, muito mais, partículas de um ruído pintalgado de nenúfares.
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