Uma conversa entre amigos insuspeita. Em dado momento a minha amiga refere ter a esperança de ver golfinhos na zona de Tróia numa ida à praia. E eu respondo que ficaria lá em baixo, no fundo do mar, com eles. A inspiração, por vezes, surge dos momentos mais casuais. Ou, como neste caso, o resgatar a memória de um dos meus filmes favoritos. E o DVD, funcionaria ainda? E o leitor? Um problema de cada vez.
Vertigem Azul foi o nome dado por cá ao filme Le Grand Bleu do Luc Besson, de 1988, contando nos papéis principais com Jean-Marc Barr, Jean Reno e Rosanna Arquette. A premissa inicial reside na rivalidade entre dois amigos de infância que, chegados à idade adulta, são agora famosos na modalidade de mergulho livre. Para um adolescente, a jornada de autodescoberta do protagonista principal, os cenários maravilhosos das sequências subaquáticas, o trabalho de fotografia e a banda-sonora, entre outros, eram motivo de fascínio. Ainda para mais quando, na altura, estava a estudar Biologia, consumia documentários como água e chegar aos calcanhares do Jacques Cousteau era um dos meus sonhos. Décadas depois, com outra idade e um percurso pessoal sinuoso a culminar num caminho totalmente diferente de outros tempos, sobreviveria o filme a este olhar de outros contornos? É uma questão pertinente, mas antes de chegarmos a ela temos a problemática de existirem algumas versões diferentes do filme. A original e recomendada é a "longa" na sua versão Europeia, com cerca de três horas de duração, existindo uma outra versão Europeia mais curta muito editada, assim como uma versão pequena feita para os Estados Unidos onde mudaram toda a banda-sonora (sacrilégio!) e o final para ser mais feliz, claro e adaptado à audiência. Esta prática comum de alterações nocivas dos produtos originais para os lançamentos nos Estados Unidos na área do cinema e dos videojogos, entre outras, dá-nos pistas de que certos problemas à vista de todos naquele país não é algo súbito ou só de agora. É uma construção permanente.
Se este filme envelheceu bem ou não, poderá passar mais por nós como pessoas. Conseguimos ainda manter uma certa ingenuidade? Uma boa dose de inocência e de sonhos por alcançar? Tolerância a narrativas longas, a momentos de mergulho hipnóticos misturados com os de humor entre as personagens e o drama? E os golfinhos, ainda nos encantam? E as falhas das personagens, a ideia de sermos seres imperfeitos carregados de muitos cinzentos e camadas a carecer de óbvia explicação? E finais dúbios, introspectivos e, tendencialmente, não positivos consoante o ponto de vista? Conseguimos sorrir ainda, perseguir o desconhecido e sentir calafrios em nós?
Como em tudo, o que retiramos desta obra acaba por ser uma experiência pessoal. O ambiente, as sensações, sentirmos como nossos aqueles momentos no fundo do mar, a paixão do protagonista por esse abismo azul e os golfinhos como seus companheiros, a sua escolha entre uma vida mais convencional, romance incluído, e o que faz o seu coração pulsar de forma diferente. Uma jornada de contemplação.
Para quem me conhece um pouco, os avisos premonitórios no filme sobre a personagem principal não ser deste mundo e não ser aconselhável pensar nela como um ser humano normal, poderão ser familiares. Brinca-se ainda hoje de eu ter aterrado aqui num cometa. E horas antes de rever este filme, décadas depois, existiram novas conversas de frustração latente do outro lado da barricada por essa razão, da minha forma de ser. Tal nunca irá mudar e esse aspecto acaba por ter o seu peso também no filme. A luta do real, da norma, com outras formas de pensar e agir. Na adolescência, tais coisas poderiam ser acompanhadas por um drama próprio da idade. Agora, encaro-o e aceito-o de forma natural. Cada um é como é. Sem juízos de valor, se é mau ou bom, nada disso importa. Cabe a cada lado depois decidir aceitar, ou não, o Outro. Mas agora deu para perceber melhor outras razões e descortinar novas camadas do porquê de gostar tanto deste filme. E sim, ainda sobrevive neste coração.
Vertigem Azul foi o nome dado por cá ao filme Le Grand Bleu do Luc Besson, de 1988, contando nos papéis principais com Jean-Marc Barr, Jean Reno e Rosanna Arquette. A premissa inicial reside na rivalidade entre dois amigos de infância que, chegados à idade adulta, são agora famosos na modalidade de mergulho livre. Para um adolescente, a jornada de autodescoberta do protagonista principal, os cenários maravilhosos das sequências subaquáticas, o trabalho de fotografia e a banda-sonora, entre outros, eram motivo de fascínio. Ainda para mais quando, na altura, estava a estudar Biologia, consumia documentários como água e chegar aos calcanhares do Jacques Cousteau era um dos meus sonhos. Décadas depois, com outra idade e um percurso pessoal sinuoso a culminar num caminho totalmente diferente de outros tempos, sobreviveria o filme a este olhar de outros contornos? É uma questão pertinente, mas antes de chegarmos a ela temos a problemática de existirem algumas versões diferentes do filme. A original e recomendada é a "longa" na sua versão Europeia, com cerca de três horas de duração, existindo uma outra versão Europeia mais curta muito editada, assim como uma versão pequena feita para os Estados Unidos onde mudaram toda a banda-sonora (sacrilégio!) e o final para ser mais feliz, claro e adaptado à audiência. Esta prática comum de alterações nocivas dos produtos originais para os lançamentos nos Estados Unidos na área do cinema e dos videojogos, entre outras, dá-nos pistas de que certos problemas à vista de todos naquele país não é algo súbito ou só de agora. É uma construção permanente.
Se este filme envelheceu bem ou não, poderá passar mais por nós como pessoas. Conseguimos ainda manter uma certa ingenuidade? Uma boa dose de inocência e de sonhos por alcançar? Tolerância a narrativas longas, a momentos de mergulho hipnóticos misturados com os de humor entre as personagens e o drama? E os golfinhos, ainda nos encantam? E as falhas das personagens, a ideia de sermos seres imperfeitos carregados de muitos cinzentos e camadas a carecer de óbvia explicação? E finais dúbios, introspectivos e, tendencialmente, não positivos consoante o ponto de vista? Conseguimos sorrir ainda, perseguir o desconhecido e sentir calafrios em nós?
Como em tudo, o que retiramos desta obra acaba por ser uma experiência pessoal. O ambiente, as sensações, sentirmos como nossos aqueles momentos no fundo do mar, a paixão do protagonista por esse abismo azul e os golfinhos como seus companheiros, a sua escolha entre uma vida mais convencional, romance incluído, e o que faz o seu coração pulsar de forma diferente. Uma jornada de contemplação.
Para quem me conhece um pouco, os avisos premonitórios no filme sobre a personagem principal não ser deste mundo e não ser aconselhável pensar nela como um ser humano normal, poderão ser familiares. Brinca-se ainda hoje de eu ter aterrado aqui num cometa. E horas antes de rever este filme, décadas depois, existiram novas conversas de frustração latente do outro lado da barricada por essa razão, da minha forma de ser. Tal nunca irá mudar e esse aspecto acaba por ter o seu peso também no filme. A luta do real, da norma, com outras formas de pensar e agir. Na adolescência, tais coisas poderiam ser acompanhadas por um drama próprio da idade. Agora, encaro-o e aceito-o de forma natural. Cada um é como é. Sem juízos de valor, se é mau ou bom, nada disso importa. Cabe a cada lado depois decidir aceitar, ou não, o Outro. Mas agora deu para perceber melhor outras razões e descortinar novas camadas do porquê de gostar tanto deste filme. E sim, ainda sobrevive neste coração.




ConversionConversion EmoticonEmoticon