«As mulheres envelhecem como o leite. Assim me descreveste para apresentares ao destino o orgulho da tua nova vida longe de mim. Poderia justificar-te essa força empalidecida com os limites do teu cérebro, mas a razão é outra. Saberes-me a respirar por via de outros pulmões. É a mágoa a falar, a imagem dos meus lábios a beber o sal de uma transpiração que não é a tua, outros dedos a tocarem naquele sinal na minha virilha, outras mãos a percorrem as curvas das minhas costas. Dói, não dói, a maresia no meu rosto nas fotografias nocturnas?
Estar comprometida comigo permite-me controlar o suor dos prelúdios, quando deixar os membros desistirem, deixá-los cair perante promessas de um corpo preso no lavatório ou na minha face rosada na pastelaria de um bairro novo. Nunca me seguiste quando te dizia precisar de refrescar a cara ou te falava do quão fria estava a minha garganta. Uma parte de mim ainda é tua e outra é do laranja e branco dos azulejos roubados aos muros da igreja ao lado da estação de comboios.
O meu olhar é uma chave submersa, os canais lacrimais um deserto na muralha das recordações, futuro arqueado através da força empregue para me conseguir mover do êxtase para os derrames da epiderme. Soubesses tu, ou outra pessoa qualquer, escutar os batimentos desta caixa de surpresas e o mundo seria uma implosão desfigurada. Incisão. Os ventrículos caminham à velocidade das noites e bombeiam o sangue para as margens das pálpebras enrugadas. O silêncio tomou conta de ti. E nessa pausa nas sílabas redescobri a pureza de apunhalar uma memória.»
Estar comprometida comigo permite-me controlar o suor dos prelúdios, quando deixar os membros desistirem, deixá-los cair perante promessas de um corpo preso no lavatório ou na minha face rosada na pastelaria de um bairro novo. Nunca me seguiste quando te dizia precisar de refrescar a cara ou te falava do quão fria estava a minha garganta. Uma parte de mim ainda é tua e outra é do laranja e branco dos azulejos roubados aos muros da igreja ao lado da estação de comboios.
O meu olhar é uma chave submersa, os canais lacrimais um deserto na muralha das recordações, futuro arqueado através da força empregue para me conseguir mover do êxtase para os derrames da epiderme. Soubesses tu, ou outra pessoa qualquer, escutar os batimentos desta caixa de surpresas e o mundo seria uma implosão desfigurada. Incisão. Os ventrículos caminham à velocidade das noites e bombeiam o sangue para as margens das pálpebras enrugadas. O silêncio tomou conta de ti. E nessa pausa nas sílabas redescobri a pureza de apunhalar uma memória.»
Nuno 'Azelpds' Almeida, Textos Soltos, 2026
O olhar submerso
Guardar [MP3] Duração [1h08m30s] Data: 30-06-2026
Playlist:
01. Active Child - Johnny Belinda
02. Jahrund - Violent Horizon
03. Daughter - Wish I Could Cross The Sea
04. Lorn - Anvil
05. Taras Bazeev - Kods
06. DoomBird - The Salt
07. Not For Radio - Swan
08. Kid Moxie - The Bailor
09. Papertwin - Deluge
10. Le Blonde - The Voices
11. Antipole - Syndrome
12. The Foreign Resort - A Time Of Fools
13. Ladytron - Tomorrow (Port-Royal Remix)
14. IAMX - Nightlife
15. Snow Ghosts - Circles Out of Salt
16. The Young Gods - Speed of Night
17. HVOB - 2nd World
02. Jahrund - Violent Horizon
03. Daughter - Wish I Could Cross The Sea
04. Lorn - Anvil
05. Taras Bazeev - Kods
06. DoomBird - The Salt
07. Not For Radio - Swan
08. Kid Moxie - The Bailor
09. Papertwin - Deluge
10. Le Blonde - The Voices
11. Antipole - Syndrome
12. The Foreign Resort - A Time Of Fools
13. Ladytron - Tomorrow (Port-Royal Remix)
14. IAMX - Nightlife
15. Snow Ghosts - Circles Out of Salt
16. The Young Gods - Speed of Night
17. HVOB - 2nd World

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