Acasos e Ruínas

"Estática, paralisada, tenho os cobertores materiais a proteger-me da descoberta, controlo de surpresas. Diante do espelho, procuro apagar as marcas do tempo, rodeada dos melhores cremes, duas horas antes de sair de casa, trabalhando a suavidade da minha pele de porcelana.

Descalça, seminua, vou passando ao de leve os dedos pelo corpo, em círculos, sem pressas, enamorada, conhecendo os cantos à casa, construindo castelos e fantasias, perfumes, sabores, um latejar delicado.

De volta ao quarto, vejo-te em paz, expressão de criança, absorto no mistério dos lençóis e penso se não seria bom arruinar-me contigo, dar um daqueles tombos magníficos dos quais nos custa levantar após saborearmos o néctar das purezas insanas, quando até ousamos repetir para nós que agora é que é.

Parada uns instantes, observo-te mais um pouco, sorriso bonito, mais ciente das pequenas maravilhas da vida, sem a mesma vontade de antes de enfrentar o mundo fora destas quatro paredes. Ajuda-me a encontrar-me de novo, dizia a voz da melodia que se ouvia no rádio uns momentos antes. Coincidência maravilhosa, mais uma, tal como tu, acaso maravilhoso, naquele dia, perdidos no reencontro de sabermos quem éramos.

Lentamente, caminho até à porta, mala debaixo dos braços, um mundo lá dentro, todos os dias é o mesmo, torna-se difícil encontrar algo que seja, quanto mais as chaves do carro, de casa ou até o batom para o cieiro. Não sei se estarás aqui mais logo, mas também não interessa, fazer-me à estrada."

Nuno Almeida, O Livro Dos Cisnes Negros, 2009

2 comentar

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18 agosto, 2009 15:14 ×

" e cada dia se tornará um dia diferente, porque o meu reflexo no espelho somos nós , o que construímos em mim, e me permite sobreviver com um sorriso intemporal "
;)

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Azelpds
admin
18 agosto, 2009 15:50 ×

Belas palavras. :)

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