HOJE: djset no Fontória, em Lisboa

quinta-feira, Outubro 16, 2014

A incerteza é uma sensação permanente. Nunca sabemos se estas noites vão voltar a acontecer, ou o que poderá ocorrer durante as mesmas. A overdose é também outro factor constante, seja na quantidade ou na diversidade musical, como nos pormenores que deixo espalhados nas publicidades alusivas a estes eventos e páginas associadas. Os textos mudam, existem vídeos diferentes para ver/ouvir, podcasts, enfim, uma torrente de partilhas em que nada é ao acaso. Mais do que dar uma ideia do que possa vir a acontecer ou de ser um simples acto de promoção, estas publicidades são elas próprias uma tentativa de dar algo às pessoas.

Da premissa de promover bandas e projectos, estas noites passaram a fundir-se com as jornadas audiovisuais que se encontram neste blogue em que misturo escrita, fotografia e música. Demasiado para absorver, talvez, nestes tempos que correm. Mas também só assim é que parece fazer sentido.

Esta noite, a partir das 24h, a nave irá aterrar novamente no Fontória.


Pergaminhos de ser

terça-feira, Outubro 14, 2014

«A rua é um manancial de oportunidades. O fôlego escapa, cada vulto uma história, uma narrativa de descoberta, de invenções que se querem o mais distantes possível da ciência. A chuva despe-te com tiques de prepotência. Mais do que as tuas roupas desligadas do corpo, sei agora que gostas de candeeiros com luz amarela, suave, fofa, de música que provoque sorrisos suficientes para convenceres outras pessoas a sentir o mesmo. Os teus dentes, eternamente leite, alcançam galáxias, o leite no meu leite, nuvens despedaçadas em refúgios de almofadas cinzentas. Sentes como é fácil, como é bonito e não linear o que escondem os cadernos das sinapses?

Este é o tempo de falar, de pensar diferente, de dizer palavras sem maiúsculas, de nos queimarmos nas chamas de brusquidão, de andar dentro do teu andar, os dedos a saírem dos buracos esquecidos nas peúgas com bonecos distraídos. Os sonhos imaculados nos sonhos que desconhecemos, em corridas de cadeiras com rodas enferrujadas que riscam o chão. Somos tudo porque essa é a vontade, copos meio-cheios não sabem a mar.

Os sons, distantes, circulam nos canais auditivos. Esquerda, direita, réstias de nuvens, navegamos em jangadas a oscilar nas marés dos livros, das páginas por escrever com caligrafia delicada e bêbada o suficiente para se ser poeta e hermético quando necessário. O medo está na insignificância de existir, na recusa em admitir a fraqueza dos membros arrancados nas cordas permeadas de nós. O toque, não é uma especiaria de ecrãs voláteis ou de ruídos diários, frágil, depende das estrelas para se orientar. Nem sequer é físico. É um enigma que não se quer resolvido porque a vida sem mistério é apenas cálculo e matemática. A lógica de uns é a resolução amórfica de outros. Brilhante de vazio, imenso de tudo, as pedras da calçada perderam as fronteiras, a batalha para a água e a caneta pede agora um repouso no bolso do casaco de veludo. Os guardanapos, timbrados com o cheiro a tinta, são nenúfares a dormitar em lagos nocturnos, perfumes de dactilografia. Pergaminhos de ser.»

Nuno Almeida
Equívocos Primários

2014

Do respirar sem fôlego

Guardar [MP3, ZIP] Duração [42:35] Data: 14-10-2014

Playlist:
01. Astronauts - Flame Exchange
02. My TV is Dead - Just Another Day
03. Dream City Film Club - Because You Wanted It
04. PNDC&housework - Nothing In The Sky
05. hospital NEON - The Sailor
06. I Love You But I've Chosen Darkness - Fear Is On Our Side
07. Madrugada - We Are Go
08. Catherine Wheel - The Nude
09. Black Swan Lane - Lonely
10. Adorable - Breathless


Fontória (09-10-2014) - Impressões e começo da noite

sábado, Outubro 11, 2014

Dia cinzento, noite a condizer. A casa ainda está vazia quando se ouvem as primeiras notas de música, um processo normal e que se repete um pouco por todo o lado. Os hábitos nocturnos dos portugueses assim o dita há alguns anos.

Cada momento é importante, tenho-o dito desde sempre. Os começos, o meio, o fim, as divagações e a improvisação total, a experiência nunca ser igual. O que podem escutar mais abaixo são os primeiros 22 minutos do meu djset esta última quinta-feira no Fontória. A introdução que pede olhares estranhos e atenção, a melancolia, a beleza sem vergonha, o crescendo gradual que determina estados de espírito. É fácil de perceber a direcção orientada pelas guitarras após a música de Patrick Phelan, numa noite que teve direito a tudo e a um final de arrepiar em que a música portuguesa teve lugar de destaque por opção minha e por requisição do público. Não foram muitos os que apareceram, mas nesses últimos momentos exclamaram “genial” algumas vezes, à medida que as palavras dos Ornatos Violeta e de José Afonso pintavam as paredes após a poesia de António Variações e as danças festivas ao som de valsas.

Muito sério e conceptual, dizem-me isso algumas vezes, primeiras impressões que tendem a não ler as entrelinhas, as frases regadas de humor podre e corrosivo que acompanham as publicidades aqui ou noutros locais, as fotografias parvas, o sorriso que brinca com as possibilidades e com as sensações, as próprias opções musicais, grande parte a pedir respostas corporais impossíveis. Sou muito sério sim, a trabalhar. O resto é sentir, apenas.

Foi uma noite em que pensei várias vezes também nas pessoas que partiram cedo demais, repentinamente, com todos os sonhos do mundo ainda, como referia no artigo que acompanhava a publicidade desta noite. Razão mais do que suficiente para continuar a tentar viver ao máximo e a tentar deixar por cá alguma marca, num ritmo de actividade e criatividade ininterrupta.



HOJE: djset no Fontória, em Lisboa

quinta-feira, Outubro 09, 2014

A semana passada teve direito a um djset a meu cargo que durou mais de seis horas. Muita música, muita variedade, um exagero a todos os níveis. Foi uma noite de testes, de sensações.

Para hoje o cardápio sonoro irá manter a diversidade, mas a quantidade de música deverá ser diferente, o que se reflecte também no novo cartaz e que confirma igualmente a minha presença no Fontória: Blues Caffe & Dinner todas as quintas-feiras.

Ao mesmo tempo, hoje dei com a triste e inesperada notícia do falecimento de uma pessoa que conhecia dos tempos longínquos das matinés na jukebox, a segunda em poucos meses. Todos partimos um dia, mas nunca se está preparado, fica-se com uma sensação estranha, incómoda, mesmo que não sejam do nosso círculo directo de amigos. Relativiza-se ainda mais a importância de tudo. Em ambos os casos, tinham todos os sonhos do mundo e uma grande paixão por música. Uma pequena homenagem daqui a umas horas a todas elas.