Monster: A importância da identidade na construção do Eu

Série de TV (Anime)
(2004/2005)

74 episódios

Obras semelhantes, ou para os apreciadores de:
Mushishi, Ghost in the Shell: Stand Alone Complex, Serial Experiments Lain, Texhnolyze, Perfect Blue, Nana, Legend of the Galactic Heroes











A natureza humana, o que é certo ou errado, as decisões que tomamos na vida podem ter consequências profundas no futuro. Estes são alguns dos temas abordados nesta excelente série, uma das minhas preferidas no que toca à animação japonesa.

Monster foge a muitos dos estereótipos associados a grande parte deste meio, enveredando por um aspecto realista a todos os níveis, seja no design das personagens como na história em si. Não há personagens com olhos esbugalhados exagerados, cabelos com paletes de cores aberrantes, ataques especiais e por aí adiante. Isto é o retrato de um dia-a-dia, de uma realidade alternativa que poderia bem ter acontecido perto de nós, a tal ponto que a série tem diversos elementos retirados de casos reais e cidades reais. O nome vem precisamente da natureza humana, do que nos pode transformar interiormente num monstro, num sociopata, em alguém insensível, no peso que a infância de cada um pode ter posteriormente na nossa vida adulta, na nossa personalidade, e não em quaisquer monstros imaginários.



Dar prioridade ao tratamento médico de pessoas conhecidas e abastadas, invés de se tratar todos por igual. Actuar consoante as eventuais contribuições monetárias e fama que poderão advir disso. Adaptada da manga homónima de sucesso e premiada no Japão, esta série é um thriller psicológico focado no percurso de Dr. Tenma, um cirurgião de sucesso talentoso. Um dia, ao questionar a política do hospital em que trabalha, entra numa espiral de dúvidas onde nem sempre fazer o que se pensa ser o bem pode ter os resultados que se espera.

Com uma vida pessoal que se vai degradando aos poucos, Tenma vê-se igualmente acusado de uns crimes misteriosos que não cometeu. Isto obriga-o a fugir e começa a ser perseguido por um detective de nome Lunge, uma das várias personagens-chave. Esta pauta por ter um tique curioso nas mãos, que a leva a imprimir no ar os dados que recolhe como se o seu cérebro fosse um computador. São pormenores como estes que vão ajudar a dar uma certa humanidade às várias personagens, com Monster a fazer lembrar, de início, a série de TV O Fugitivo.



Pegando nessa ideia da série de TV, é precisamente isso que Monster lembra muitas vezes, uma obra “normal” como as que vemos durante a semana na televisão e não propriamente uma série anime. Continuando este raciocínio, é uma obra passível de poder agradar a um largo espectro de público e não ao típico fã de animação japonesa. É, inclusive, uma das melhores apostas para mostrar a quem não tenha alguma ligação de afinidade com este meio.



Apesar da longevidade da série ser considerável, nomeadamente 74 episódios de 20 minutos cada, até os que parecem a início não ter muito a ver com a trama principal acabarão por mostrar a sua relevância mais tarde, como peças de um puzzle que se juntam a pouco e pouco. A atenção aos pormenores é tal, que encontro aqui o único exemplo que vi até hoje onde até os créditos de fim de episódio estão directamente ligados à história, à medida que vemos as imagens de um livro de banda desenhada mudar consoante a série progride e ao som da música 'For The Love of Life', interpretada por David Sylvian.



A narrativa e todo o enredo é mesmo o principal ponto forte de Monster, com muitas revelações inesperadas e reviravoltas até ao final do último episódio, o que convida a muitos momentos de reflexão. A jornada de Tenma e das outras personagens (por razões óbvias para quem já viu a série, estou a evitar dizer ao máximo outros nomes) decorre, em grande parte, pela Alemanha e pela República Checa. A minha visita a Praga, em 2006, mostrou-me que houve um cuidado especial na recriação dos locais. Essa atenção ao pormenor nesta transposição da manga, após ponderarmos noutros factores que descreverei de seguida, parece ser um caso claro de amor exacerbado pela obra original.

Em primeiro lugar, a equipa técnica da Madhouse, responsável por esta adaptação, deixou terminar a manga antes de começar a fazer a série, ao contrário do que acontece em tantos outros casos, o que lhes permitiu serem fieis aos livros. Em segundo, terem anunciado que a versão anime iria conter x número de episódios quando a mesma ainda estava por estrear, o que também não é muito normal e revelava a intenção de seguirem ao máximo os 18 livros que compõem a manga. Em terceiro, temos a maneira como foram animadas certas partes da manga, havendo ideias excelentes, tanto de realização como de criatividade, com destaque para quando alguém lê na versão televisiva um livro infantil de BD por exemplo.



Monster é um marco no que se espera a nível de animação japonesa. É até complicado ver outras coisas posteriormente. A fasquia fica elevada e muitas outras obras parecem demasiado simplistas e infantis em comparação. A realidade é que não há nenhuma obra de anime parecida com Monster, mesmo que ela possa agradar aos fãs de outras como alguns dos exemplos que podem ver no início deste artigo. Só Legend of the Galactic Heroes, por si só uma obra épica a não perder também, consegue alcançar a sua complexidade e qualidade, apesar de abordar temáticas diferentes e pertencer a um género distinto, mais concretamente o da ficção científica.

O ritmo mais parado poderá testar a tolerância dos menos pacientes, já para não falarmos do número generoso de episódios. Os temas abordados requerem uma certa pré-disposição para questões profundas como a importância da identidade na construção do Eu e de como isso pode condicionar o comportamento de cada indivíduo no futuro, mas para quem gosta dessas temáticas e de ambientes policiais, thrillers psicológicos, mistério, de experiências maduras que não tenham acção constante, Monster é uma série absolutamente obrigatória de ver nem que seja uma vez.