A melancolia e a tempestade

«Submersa em violência emocional, procurei o corredor transversal e afastei-me das pessoas. Quarto piso do hospital. Visitas de internamento. Andei um pouco até à janela e ali fiquei, só, a desaparecer de forma tão bela como a de um tubarão enorme a surgir do nada diante de nós no abismo marítimo, para esfumar-se de seguida tão depressa como apareceu. Ainda me encontro vestida, pensei para comigo. E tapei os olhos com uma venda. Vi-te lá, comigo, de mãos dadas a ver o caos. Estava à tua espera para me despir, tu sabes. Para falarmos sobre quem se despede de nós num último esforço da voz, do corpo quebrado sem carne nos ossos, de como assumi o arriscar de uma nova cicatriz na alma, de como isso foi uma escolha deliberada. Absorver nova devastação.

A luz e a escuridão. O fim é o princípio. Caminhamos sobre dicotomias. Falo-te da dor, do sofrimento colectivo e específico, dos rostos encostados em lágrimas, dos semblantes carregados. E no minuto seguinte estou a deslizar por ti acima a replicar ideais de beleza presentes nas esculturas dos nossos segredos. Como depois encosto a minha cabeça ao teu peito, para a deixar descair a pouco e pouco até ao teu colo. Podia adormecer assim. Não precisamos de ser fortes. Não sempre. Podemos permitir-nos um pouco deste conforto, desta melancolia introspectiva, um suporte na tempestade sombria. Vem. Deixa-me guiar-te até às minhas veias. Transfusão de sangue.

Pulsamos com força crescente, na sabedoria de sabermos quão frágeis são as idades dos nossos passados, os temperamentos distantes das fornalhas de outrora. Nas minhas confissões da tristeza vislumbrada na cama daquele quarto onde passei uma boa parte do dia. Regressei à janela. Não tem grades, reparo agora. E o asfalto? Como o encarar daqui a nada, as horas na estrada com a cabeça inundada por tudo? Sair de mim, mudar o vestido, projectar-te no vidro como farol e não pensar em mais nada, o volante a estabelecer ligação directa ao infortúnio da injustiça. Anoitece e as luzes dos faróis assemelham-se a pirilampos desfocados. Só mais umas horas, penso. Estou quase a chegar, os teus dedos nos meus, a iluminarem o trilho no nevoeiro da doença.
»

Nuno 'Azelpds' Almeida, Textos Soltos, 2026


A melancolia e a tempestade

Guardar [MP3] Duração [1h19m45s] Data: 21-10-2026

Playlist:
01. The Golden Filter - Here We Go Again
02. Bullets in Madison - St. Jude
03. Fevr & Vick Vapors - When Love Fades
04. R. Missing - Unbenighted
05. Magic Wands - Diamond Rain
06. The Death of Lilies - Something From Nothing
07. Ritual Howls - Nervous Hands
08. Soft Kill - Dark Alley Thug
09. Voyeur - Spirit
10. 16 Horsepower - Splinters
11. Sivert Høyem - The Boss Bossa Nova
12. Aldous Harding - Titus Groan
13. Jewls - We've Invented Speed
14. Glaare - First Rain
15. Haunt Me - 500 Days of Summer
16. Glaring - En Attendant
17. Sin Cos Tan - Turnover
18. TTSSFU - Sick
19. Just Mustard - I Am You

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