«Esta terra está devastada, as poeiras ainda por levantar do último impulso dos nossos campos magnéticos. Uma flor nasce tímida no seio do solo. Abordada por iguanas, sopra o pólen para o gume das línguas do veneno sofisticado. Temos completa noção da nossa capacidade de destruição, feixes de luz perfurantes, as escamas ardem nos rochedos com a lua a ser testemunha das sombras, a areia escapando-nos dos dedos, os cristais deslizando para uma jarra tão antiga como as nossas almas.
Ornamentos em serpente, um verde vivo misturado com o amarelo torrado dos girassóis derretidos nas extremidades dos dias, curvamos o corpo até ao limite, presos na esfera de sentidos. Sofremos na ausência de toques, a tensão nos músculos, engrenados na dificuldade de controlo das nossas vontades. Escutas? A música, as notas, o agravar da nossa situação, o respirar a encostar-se ao deserto, a onda de choque a aproximar-se, o Inverno nuclear a prometer arrasar com tudo em redor. A ruína é necessária, as casualidades, para o nascimento de um terreno mais fértil, pleno de vida, intensificado nos nossos corações pendurados num fio apertado ao pescoço.
Os sonhadores não têm permissão para dormir. Tombam por amor. Sabemos disso. Inventam paisagens inóspitas por ser intolerável o tempo afastados um do outro. São partículas radiantes, místicas, entrincheiradas nas fronteiras queimadas pelos átomos. Um desequilíbrio químico.
O perímetro das montanhas é um estranho a pedir-nos golfadas de ar, um braço suspenso no trapézio e, no entanto, ele flutua com as nossas fagulhas, alonga-se em enlevo quando as quedas são vertiginosas. Uma urgência aflita na nossa garganta. Vês como brilha o futuro através desta porta imaginária? Desta miragem no horizonte do cemitério das inquietações? O deserto é um eco do nosso renascer, a verdade exposta nos nossos pés molhados a caminhar juntos na água de um oásis.»
Ornamentos em serpente, um verde vivo misturado com o amarelo torrado dos girassóis derretidos nas extremidades dos dias, curvamos o corpo até ao limite, presos na esfera de sentidos. Sofremos na ausência de toques, a tensão nos músculos, engrenados na dificuldade de controlo das nossas vontades. Escutas? A música, as notas, o agravar da nossa situação, o respirar a encostar-se ao deserto, a onda de choque a aproximar-se, o Inverno nuclear a prometer arrasar com tudo em redor. A ruína é necessária, as casualidades, para o nascimento de um terreno mais fértil, pleno de vida, intensificado nos nossos corações pendurados num fio apertado ao pescoço.
Os sonhadores não têm permissão para dormir. Tombam por amor. Sabemos disso. Inventam paisagens inóspitas por ser intolerável o tempo afastados um do outro. São partículas radiantes, místicas, entrincheiradas nas fronteiras queimadas pelos átomos. Um desequilíbrio químico.
O perímetro das montanhas é um estranho a pedir-nos golfadas de ar, um braço suspenso no trapézio e, no entanto, ele flutua com as nossas fagulhas, alonga-se em enlevo quando as quedas são vertiginosas. Uma urgência aflita na nossa garganta. Vês como brilha o futuro através desta porta imaginária? Desta miragem no horizonte do cemitério das inquietações? O deserto é um eco do nosso renascer, a verdade exposta nos nossos pés molhados a caminhar juntos na água de um oásis.»
Nuno 'Azelpds' Almeida, Textos Soltos, 2026
O deserto
Guardar [MP3] Duração [1h34m20s] Data: 29-09-2026
Playlist:
01. Coil - The Dreamer Is Still Asleep
02. Dark Sky - Nothing Changes
03. Public Memory - Afterlife
04. Massive Attack - Ritual Spirit
05. R. Missing - Unsummering
06. Gazella - Reflejo
07. Blouse - Time Travel
08. Ductape - Blue Black
09. Lone Assembly - You're Pulling at the Same Strings
10. Latitudes - Antechamber
11. Dog silent - Thicket
12. Iress - Shallow
13. Postcards - Wasteland Rose
14. Mud Flow - The Sense of Me / Chemicals
15. Tindersticks - Always a Stranger
16. Mi von Ahn - Yet all drifts
17. Bluhm - Low Light
18. Nation of Language - Weak In Your Light
19. Friend Of A Friend - Always On Time
02. Dark Sky - Nothing Changes
03. Public Memory - Afterlife
04. Massive Attack - Ritual Spirit
05. R. Missing - Unsummering
06. Gazella - Reflejo
07. Blouse - Time Travel
08. Ductape - Blue Black
09. Lone Assembly - You're Pulling at the Same Strings
10. Latitudes - Antechamber
11. Dog silent - Thicket
12. Iress - Shallow
13. Postcards - Wasteland Rose
14. Mud Flow - The Sense of Me / Chemicals
15. Tindersticks - Always a Stranger
16. Mi von Ahn - Yet all drifts
17. Bluhm - Low Light
18. Nation of Language - Weak In Your Light
19. Friend Of A Friend - Always On Time

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