«Uma estação de comboios. Ela situa-se no luto dos escombros das nossas ruínas passadas. Os alarmes das máquinas bonitas avisam-nos da sua presença nas cavernas incrustadas nas montanhas desenhadas por arquitectos agitados. No eco dos túneis nocturnos. Uma distracção, uma colina a escapar-nos, a estrada contrária num cruzamento. A oportunidade é sempre limitada, o risco permanente de perdermos a nossa carruagem. Entrámos.
A luz quente, amarelada, ilumina os bancos cinzento escuro. Alguns exibem rasgões, desgastes, o tempo de quem já se sentou aqui. Os meus olhos fixaram-se nos teus. A tua pele, branca como a neve, tenta-me a pensar em queimaduras para as quais ainda não determinaram uma escala. Ouço os carris a chiar, as faíscas no metal, a minha mão está já entrelaçada na tua. Gosto do contraste das nossas tonalidades, da firmeza natural dos gestos, da procura, da nossa enfermidade. Um problema a formar-se, o nosso, as labaredas do mais belo dos incêndios. O calor é insuportável. As portas automáticas estão abertas. Saímos.
Respiramos o ar do nosso diagnóstico, comprometidos em silêncio, os peitos apertados um contra o outro, os deslizes dos braços a perseguirem a humidade dos latejos, a comunicação à velocidade da luz sem uma direcção estável. Fluímos no caudal da nascente dos vulcões adormecidos e sonhamos com o momento das bocas tapadas, dos lábios preenchidos por lava, dos corpos pintados de fogo. Sente como caminhamos em direcção às erupções, verdadeiros nas maleitas e em tudo, dos gritos na natureza para deleite dos coiotes e do chão a reclamarmos como nosso, na madeira a falar com os nossos joelhos. Desalinhámos as nossas sinapses, até então muito arrumadas. Elas formam agora um outro mapa labiríntico, a incerteza deste salto no desconhecido. Sorrimos.
Os prenúncios da chegada da desordem ocorrem quando o estabelecer de uma linguagem comum é imediato. Aí, nesse instante, a realidade transfigura-se, perdida com o malear de um vento demoníaco. E nesse momento, quando nada sabemos, descobrimos a entrada para o nosso inferno, a estação do nosso comboio e prosseguimos, embevecidos nas possibilidades de corações ultrapassados por vontades urgentes. Sentes? A ausência de dúvida no olhar? Nas palavras? Nos nossos actos e intuitos? O enredo a complicar-se quando não podemos arder todos os dias? Sei, um tormento. E rimos, muito, tentando definir uma cor de fundo para a nossa tela, os pinceis ferramentas de aprendizagem espalhadas no atelier. E este, o nosso jardim incendiado.»
A luz quente, amarelada, ilumina os bancos cinzento escuro. Alguns exibem rasgões, desgastes, o tempo de quem já se sentou aqui. Os meus olhos fixaram-se nos teus. A tua pele, branca como a neve, tenta-me a pensar em queimaduras para as quais ainda não determinaram uma escala. Ouço os carris a chiar, as faíscas no metal, a minha mão está já entrelaçada na tua. Gosto do contraste das nossas tonalidades, da firmeza natural dos gestos, da procura, da nossa enfermidade. Um problema a formar-se, o nosso, as labaredas do mais belo dos incêndios. O calor é insuportável. As portas automáticas estão abertas. Saímos.
Respiramos o ar do nosso diagnóstico, comprometidos em silêncio, os peitos apertados um contra o outro, os deslizes dos braços a perseguirem a humidade dos latejos, a comunicação à velocidade da luz sem uma direcção estável. Fluímos no caudal da nascente dos vulcões adormecidos e sonhamos com o momento das bocas tapadas, dos lábios preenchidos por lava, dos corpos pintados de fogo. Sente como caminhamos em direcção às erupções, verdadeiros nas maleitas e em tudo, dos gritos na natureza para deleite dos coiotes e do chão a reclamarmos como nosso, na madeira a falar com os nossos joelhos. Desalinhámos as nossas sinapses, até então muito arrumadas. Elas formam agora um outro mapa labiríntico, a incerteza deste salto no desconhecido. Sorrimos.
Os prenúncios da chegada da desordem ocorrem quando o estabelecer de uma linguagem comum é imediato. Aí, nesse instante, a realidade transfigura-se, perdida com o malear de um vento demoníaco. E nesse momento, quando nada sabemos, descobrimos a entrada para o nosso inferno, a estação do nosso comboio e prosseguimos, embevecidos nas possibilidades de corações ultrapassados por vontades urgentes. Sentes? A ausência de dúvida no olhar? Nas palavras? Nos nossos actos e intuitos? O enredo a complicar-se quando não podemos arder todos os dias? Sei, um tormento. E rimos, muito, tentando definir uma cor de fundo para a nossa tela, os pinceis ferramentas de aprendizagem espalhadas no atelier. E este, o nosso jardim incendiado.»
Nuno 'Azelpds' Almeida, Textos Soltos, 2026
O incêndio
Guardar [MP3] Duração [1h16m50s] Data: 21-08-2026
Playlist:
01. Terzo - Walking Dreams Awake
02. Ásgeir - Rattled Snow
03. Promise and the Monster - Beating Heart
04. Chromatics - Running Up That Hill
05. Skinny Puppy - Cullorblind
06. PJ Harvey - The Garden
07. Curve - Coast Is Clear
08. Haley - Last War
09. Whispering Sons - Alone
10. Jeniferever - Sparrow Hills
11. E-L-R - Archeress
12. Ştiu Nu Ştiu - Widsith
13. REZN - Optic Echo
14. The Angelic Process - We All Die Laughing (Weighing Souls with Sand Version)
15. We Lost The Sea - A Beautiful Collapse
16. Found Space - Everything
02. Ásgeir - Rattled Snow
03. Promise and the Monster - Beating Heart
04. Chromatics - Running Up That Hill
05. Skinny Puppy - Cullorblind
06. PJ Harvey - The Garden
07. Curve - Coast Is Clear
08. Haley - Last War
09. Whispering Sons - Alone
10. Jeniferever - Sparrow Hills
11. E-L-R - Archeress
12. Ştiu Nu Ştiu - Widsith
13. REZN - Optic Echo
14. The Angelic Process - We All Die Laughing (Weighing Souls with Sand Version)
15. We Lost The Sea - A Beautiful Collapse
16. Found Space - Everything

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