“Sob a noite, as mãos ósseas da tempestade. O cintilar imperfeito antes do tempo das rosas. O relâmpago por vir saudar as nuvens. E a tristeza, um rosto que a hulha percorre, nutre e fecunda. Etérea noite vulnerável, de ti sei apenas a metade da lua quando se desvela. O crescendo de um ritmo findando num corpo, a areia das estrelas para minha comoção, reluz. Vim saudar a escuridão, a sombra rasgada por um eólico ensejo, cresce, multiplica-se, divide-nos. Umbigo solitário sem cordão, sem feto, sem mãe. Amanhã, se não te encontrar, lembra-me que tenho de esquecer todos os anos em que a vida foi apenas um cesto de vime, uma impressão que se apagou, um traço que perdeu a nitidez. Sob a noite, um só sopro e a voz carnal reflectida nas escadas silencia um convite a sair como se fôssemos duas crianças destroçadas.”
(in 17., p. 25)
Acasos. Inúmeras vezes descobertas felizes originam dessa forma. Mas para tal acontecer também tem de existir uma predisposição e abertura da nossa parte. O meu primeiro contacto com a escrita da Leonora partiu de algo tão simples como o pedido de amizade que me endereçou no Facebook.
Passados uns meses, após alguma interacção mútua nas páginas, chegamos a este seu novo livro de prosa poética, Cerne, existindo também aqui outra curiosidade a reter. Sem nos conhecermos de lado nenhum, decidimos marcar um encontro ao vivo praticamente de improviso para trocarmos livros e uns dedos de conversa, acabando por se juntar a nós também o Ricardo Rosado, companheiro da Leonor e responsável pela paginação do livro, assim como o poeta Jorge Vicente. Todo este contexto é importante. Atarefados com tudo e com nada, num mundo cada vez mais apressado e frio, existe uma tendência para complicarmos o mais simples. O silêncio impera, marcar algo com quem até conhecemos chega a ser uma tarefa hercúlea, ignora-se o Outro e, passado algum tempo, as pessoas ficam admiradas quando surge mais um óbito inesperado. A vida é curta. Por vezes, basta apenas uma simples mensagem ou um: "bora lá".
Investigando um pouco, dei conta de existir um longo percurso antes de chegarmos a este novo livro. Cerca de vinte obras publicadas entre poesia e prosa poética em várias editoras desde 2012, já para não referir as incursões na área do desenho e pintura. E uma pessoa questiona-se como nunca ouviu falar antes desta autora. Impossível conhecer tudo, mas esponja como sou, continuo aberto à descoberta e aqui estamos.
“Para sempre este tempo ruminado para o interior do estômago. Esta luz baça, doentia. Tudo é pretexto para desabar, para ruir. Um fio de cabelo caído, uma porta que range. Para sempre esta sofreguidão, um átomo de dor que se alarga até ao tamanho do corpo inteiro. Lê-se na pele da orelha o eco de uns olhos claros, a vertigem que sobe pela garganta. Poluído orvalho em flor e a náusea trazida por este vento, e a oscilação a que sobem estas mãos, quantos vocábulos arrancados pela raíz como dentes. Para sempre e todo sempre sabemos, que não haverá sempre jamais. As paredes têm foles escondidos, lâminas ocultas com que aparam as nossas horas. Para sempre irremediavelmente, morro, morremos. As paredes fixam em nós os olhos esfarelam-nos, sugam-nos os poros. As paredes são animais ferozes, uivam para dentro de nós. Para sempre e todo o sempre uma vez que se esquece, uma outra em que se adia a palavra. Todo o movimento é uma mera ilusão, tudo permanece plano, estático, moribundo. Toda a aceleração das partículas e dos átomos perde a sua importância quando o que realmente importa é estarmos vivos, que o sangue flui nos nossos pulsos. Toda a arte é inútil, assim como também a vida o é. Para sempre e todo sempre, um espasmo no universo.”
(in 51., p. 60)
Ritmo inquieto e vertiginoso, torrencial, uma maré de surpresas sem concessões. Sentimos a força e energia das frases sobre nós, dos textos a pedirem uma atenção redobrada, fluxo de consciência, cadência endiabrada. A cada página uma pequena pausa para respirarmos, para recuperar o fôlego. A própria linguagem inspira-nos a quebrar os alicerces dos relógios.
“Suspenso, o penhasco. Ínfima corda esticada pelas figueiras, desde que morreste que eu deixei de ir à ribeira lavar a tua roupa, o estendal não tem mais uso. Desde que morreste deixei de tomar banho e assim qualquer trapo me serve. Qualquer rodilha que passo sobre a pele não importa que suja ou limpa. No vapor dos anos idos como nos comboios antiquíssimos, na gare que terminava filmes, sou ainda a maçaroca que germinará. O écran em tela de todos os daguerreotipos impossíveis, porque se viaja intensamente ainda seja inverosímil. O milho vermelho como a pictórica sensação de sensibilidade a encarnado. Aos dezoito anos insistia em acreditar na inocência, mesmo que não o soubesse.”
(in 14., p. 22)
Como em qualquer obra deste pendor, dispensam-se análises ao conteúdo por serem redundantes. Estamos no campo do sentir, de uma escrita a pulsar na pele e, por vezes, isto resume-se somente às nossas veias ferverem ou não em uníssono com os textos. A resposta do meu lado é óbvia. Se aparece neste blogue e decido escrever sobre é porque me faz disparar as sinapses e a epiderme. E neste caso decidi também, em grande parte, deixar os textos da autora falarem por si por sentir insuficientes quaisquer palavras para os descrever. E muitos outros poderia partilhar aqui, podendo variar consoante os dias quais nos abalam o esqueleto de forma mais intensa.
O livro contém 101 textos, destacando-se também o design da capa cujo efeito só é passível de perceber melhor ao vivo. Para quem estiver interessado, podem encomendar o livro directamente à autora ou através da página da editora Nu Limbo Edições.
“Enquanto a voz caiar a sombra, a parede do infinito que esvoaça, a música nos postigos pousa sobre a tarde e o arco de um violino desliza subtil enchendo de melodia os gestos de uma jovem mulher. Os juncos continuam ao ritmo do vento e a aragem ora agreste, ora intolerável, continua-nos, segue a embraiagem do tempo, meretriz fácil ao colo de um jazigo. Delicadas flores fenecem no coração de um frio austero. Dias de contemplação no horizonte das mãos que se deslaçam. A tristeza placidamente envolve os rostos fechando a luz que acaba por cessar.”
(in 68., p. 77)
(in 17., p. 25)
Acasos. Inúmeras vezes descobertas felizes originam dessa forma. Mas para tal acontecer também tem de existir uma predisposição e abertura da nossa parte. O meu primeiro contacto com a escrita da Leonora partiu de algo tão simples como o pedido de amizade que me endereçou no Facebook.
Passados uns meses, após alguma interacção mútua nas páginas, chegamos a este seu novo livro de prosa poética, Cerne, existindo também aqui outra curiosidade a reter. Sem nos conhecermos de lado nenhum, decidimos marcar um encontro ao vivo praticamente de improviso para trocarmos livros e uns dedos de conversa, acabando por se juntar a nós também o Ricardo Rosado, companheiro da Leonor e responsável pela paginação do livro, assim como o poeta Jorge Vicente. Todo este contexto é importante. Atarefados com tudo e com nada, num mundo cada vez mais apressado e frio, existe uma tendência para complicarmos o mais simples. O silêncio impera, marcar algo com quem até conhecemos chega a ser uma tarefa hercúlea, ignora-se o Outro e, passado algum tempo, as pessoas ficam admiradas quando surge mais um óbito inesperado. A vida é curta. Por vezes, basta apenas uma simples mensagem ou um: "bora lá".
Investigando um pouco, dei conta de existir um longo percurso antes de chegarmos a este novo livro. Cerca de vinte obras publicadas entre poesia e prosa poética em várias editoras desde 2012, já para não referir as incursões na área do desenho e pintura. E uma pessoa questiona-se como nunca ouviu falar antes desta autora. Impossível conhecer tudo, mas esponja como sou, continuo aberto à descoberta e aqui estamos.
“Para sempre este tempo ruminado para o interior do estômago. Esta luz baça, doentia. Tudo é pretexto para desabar, para ruir. Um fio de cabelo caído, uma porta que range. Para sempre esta sofreguidão, um átomo de dor que se alarga até ao tamanho do corpo inteiro. Lê-se na pele da orelha o eco de uns olhos claros, a vertigem que sobe pela garganta. Poluído orvalho em flor e a náusea trazida por este vento, e a oscilação a que sobem estas mãos, quantos vocábulos arrancados pela raíz como dentes. Para sempre e todo sempre sabemos, que não haverá sempre jamais. As paredes têm foles escondidos, lâminas ocultas com que aparam as nossas horas. Para sempre irremediavelmente, morro, morremos. As paredes fixam em nós os olhos esfarelam-nos, sugam-nos os poros. As paredes são animais ferozes, uivam para dentro de nós. Para sempre e todo o sempre uma vez que se esquece, uma outra em que se adia a palavra. Todo o movimento é uma mera ilusão, tudo permanece plano, estático, moribundo. Toda a aceleração das partículas e dos átomos perde a sua importância quando o que realmente importa é estarmos vivos, que o sangue flui nos nossos pulsos. Toda a arte é inútil, assim como também a vida o é. Para sempre e todo sempre, um espasmo no universo.”
(in 51., p. 60)
Ritmo inquieto e vertiginoso, torrencial, uma maré de surpresas sem concessões. Sentimos a força e energia das frases sobre nós, dos textos a pedirem uma atenção redobrada, fluxo de consciência, cadência endiabrada. A cada página uma pequena pausa para respirarmos, para recuperar o fôlego. A própria linguagem inspira-nos a quebrar os alicerces dos relógios.
“Suspenso, o penhasco. Ínfima corda esticada pelas figueiras, desde que morreste que eu deixei de ir à ribeira lavar a tua roupa, o estendal não tem mais uso. Desde que morreste deixei de tomar banho e assim qualquer trapo me serve. Qualquer rodilha que passo sobre a pele não importa que suja ou limpa. No vapor dos anos idos como nos comboios antiquíssimos, na gare que terminava filmes, sou ainda a maçaroca que germinará. O écran em tela de todos os daguerreotipos impossíveis, porque se viaja intensamente ainda seja inverosímil. O milho vermelho como a pictórica sensação de sensibilidade a encarnado. Aos dezoito anos insistia em acreditar na inocência, mesmo que não o soubesse.”
(in 14., p. 22)
Como em qualquer obra deste pendor, dispensam-se análises ao conteúdo por serem redundantes. Estamos no campo do sentir, de uma escrita a pulsar na pele e, por vezes, isto resume-se somente às nossas veias ferverem ou não em uníssono com os textos. A resposta do meu lado é óbvia. Se aparece neste blogue e decido escrever sobre é porque me faz disparar as sinapses e a epiderme. E neste caso decidi também, em grande parte, deixar os textos da autora falarem por si por sentir insuficientes quaisquer palavras para os descrever. E muitos outros poderia partilhar aqui, podendo variar consoante os dias quais nos abalam o esqueleto de forma mais intensa.
O livro contém 101 textos, destacando-se também o design da capa cujo efeito só é passível de perceber melhor ao vivo. Para quem estiver interessado, podem encomendar o livro directamente à autora ou através da página da editora Nu Limbo Edições.
“Enquanto a voz caiar a sombra, a parede do infinito que esvoaça, a música nos postigos pousa sobre a tarde e o arco de um violino desliza subtil enchendo de melodia os gestos de uma jovem mulher. Os juncos continuam ao ritmo do vento e a aragem ora agreste, ora intolerável, continua-nos, segue a embraiagem do tempo, meretriz fácil ao colo de um jazigo. Delicadas flores fenecem no coração de um frio austero. Dias de contemplação no horizonte das mãos que se deslaçam. A tristeza placidamente envolve os rostos fechando a luz que acaba por cessar.”
(in 68., p. 77)

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