«Aguardo o próximo comboio. Sentada neste banco, acordei leve, liberta, pronta a receber o pólen das árvores nos meus pulmões. Algodão da Primavera. A carruagem está repleta de vontades semelhantes, mesmo nos rostos mais enxovalhados pela vida. Hoje pertenço à multidão.
É importante percebermos o nosso caminho, saber quando os desvios se tornam curvas perigosas e não ter receio de provocar um acidente para nos trazer de volta. Hoje não estou só. Guardo comigo palavras amigas no peito. Cruzo as pernas e vejo muitas pessoas bonitas. Hoje não estamos sós.
Estes pés conhecem bem o asfalto desta avenida. Dos dias transformados em noites para voltarem a ser dia num prédio qualquer antes de voltar para a rua com o estômago a falar comigo. Sim, também já fui um desses clichés de não ficar para o pequeno-almoço. Ainda mal dei um passo após sair da estação e já se trocam sorrisos. Hoje seria capaz de entregar o meu coração. Não assim, não dessa forma como estás a pensar. A fibrilação deixa-me indiferente, sou particularmente adepta dos tremores intensos, constantes.
Roupa com buracos, calçado a desfazer-se. Reencontros, conversas aleatórias espontâneas, contactos. Hoje despertei aberta à interacção. Sentia saudades disto confesso, embriagada por defeito, com o equilíbrio em estado precário por tanto estímulo. A cadência é minha. Este dia mostrou-me o corte necessário, a lâmina em desfalque. Hoje não estamos sós. Hoje deixei de estar só.»
É importante percebermos o nosso caminho, saber quando os desvios se tornam curvas perigosas e não ter receio de provocar um acidente para nos trazer de volta. Hoje não estou só. Guardo comigo palavras amigas no peito. Cruzo as pernas e vejo muitas pessoas bonitas. Hoje não estamos sós.
Estes pés conhecem bem o asfalto desta avenida. Dos dias transformados em noites para voltarem a ser dia num prédio qualquer antes de voltar para a rua com o estômago a falar comigo. Sim, também já fui um desses clichés de não ficar para o pequeno-almoço. Ainda mal dei um passo após sair da estação e já se trocam sorrisos. Hoje seria capaz de entregar o meu coração. Não assim, não dessa forma como estás a pensar. A fibrilação deixa-me indiferente, sou particularmente adepta dos tremores intensos, constantes.
Roupa com buracos, calçado a desfazer-se. Reencontros, conversas aleatórias espontâneas, contactos. Hoje despertei aberta à interacção. Sentia saudades disto confesso, embriagada por defeito, com o equilíbrio em estado precário por tanto estímulo. A cadência é minha. Este dia mostrou-me o corte necessário, a lâmina em desfalque. Hoje não estamos sós. Hoje deixei de estar só.»
Nuno 'Azelpds' Almeida, Textos Soltos, 2026
Hoje
Guardar [MP3] Duração [1h06m50s] Data: 27-04-2026
Playlist:
01. Halou - The Sun Goes Up
02. Them Are Us Too - Grey Water
03. God Is an Astronaut - Dust and Echoes
04. MONO (Japan) - Winter Daphne
05. Film School - Up Spacecraft
06. The Afghan Whigs - Algiers
07. Blue States - Ten Shades
08. Clubdrugs - Overdose
09. Be Forest - Glow
10. Pale Saints - Hunted
11. Sigur Rós - Isjaki
12. Mogwai - Ratts of the Capital
13. Front Line Assembly - Synthetic Forms
14. Skinny Puppy - Nature's Revenge

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