Da banalidade do mal: conversas corriqueiras

- Olhe lá, o seu filho é comunista?
Que eu saiba não, mas também não é de direita.
- Olhe eu sou de direita, de extrema direita (mostra uma tatuagem no braço). E o seu filho é comunista de certeza, usa aquela boina como o Vitorino. Já falei com ele umas vezes, de certeza que é.

Isto assim de repente poderia parecer retirado de uma qualquer obra de ficção. Mas não. Apenas mais uma conversa corriqueira nestes tempos delicados. A pouco e pouco, estamos novamente a chegar ao ponto perigoso de se acharem normais estas interacções, de se procurarem conflitos apenas por o Outro se vestir ou pensar de forma diferente da norma. Ver também as mais recentes polémicas aprovadas na assembleia da república e certas iniciativas vergonhosas por quem lida mal com a privacidade e sexualidade dos outros. O problema maior está precisamente no mal tornar-se corriqueiro, banal. E no orgulho de se dizer, citando novamente, sou de extrema direita (com tatuagem a condizer). Ser fascista tornou-se fixe.

Dando um nadinha mais de contexto. Nunca falei com a pessoa em causa aparte pedir e pagar compras ocasionalmente no seu estabelecimento. Não tenho em mim o hábito de alimentar conversas inúteis.

Apesar de tudo, não sou estranho a este tipo de insinuações e interrogações sobre mim. Isto já acontece desde criança. Até já me tiraram fotografias à cara podre em Nova Iorque e noutros locais considerados mais progressivos e habituados a "bonecos estranhos". Mas este tipo de conversas como a exposta aqui revela algo de outro teor muito mais pernicioso. O normalizar de um discurso bafiento, validando gradualmente agressões ao Outro apenas por existir, por estar na rua à hora errada, por vestir uma saia mais curta, por se ter determinados tons de pele, por ter maior ou menor massa corporal, por ter um nariz de origem árabe, por ter um sexo diferente, por beijar quem bem lhe apetece, por aparentar ser mais feliz, por se usar boinas, esse adereço tão subversivo e radical, por...

E tu, também és comunista?
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