Da Literatura: Liberdade para matar as epígrafes e as dedicatórias

Locais, pessoas, experiências, conquistas e derrotas. Sendo isto um blogue, não têm sido poucas as ocasiões de partilhas transparentes, de momentos, vivências. Uma convivência limite com elementos de outra natureza. E nisto, os contextos de cada, o conteúdo do destino da escrita, importa.

Poderíamos dizer ser senso comum a diferença de comunicação, a forma dos textos, o encadeamento, variar consoante o teor e o público-alvo. A realidade mostra-nos não ser bem assim. Por vezes, nem em peças jornalísticas, onde deveria existir clareza na comunicação e regras estipuladas, tal acontece. Ou assim aprendi no meu percurso e formação. Nesse sentido, é possível observar aqui claras diferenças em publicações mais informativas, sejam elas opiniões de discos ou reportagens, quando comparadas com partilhas mais intimistas ou ficção. Começamos a chegar, a pouco e pouco, ao cerne deste artigo, à ideia de liberdade possibilitada pela Literatura.
O feminino não é erro ou acaso. Liberdade. Brincar. Assumir a personalidade dominante da escrita. Não há regras aqui.
Mera opinião e gosto pessoal, caso houvesse alguma dúvida, quanto mais escrevia e descartava as folhas repletas de palavras do passado, mais me ia interessando uma nudez, um despir de qualquer informação adicional óbvia antes de um livro começar. Género na capa, epígrafes, dedicatórias. Comecei a encarar isso tudo como condicionamentos, facilitar, conduzir um leitor. Tornei-me uma cínica, alguém diria. O feminino não é erro ou acaso. Liberdade. Brincar. Assumir a personalidade dominante da escrita. Não há regras aqui.


Em 2016, quando certos livros viram a luz do dia, uma ou outra pessoa ficou admirada por não existir uma dedicatória nas páginas iniciais. Tal como neste blogue, não esqueço ninguém, não apago ninguém. Apenas não pretendo isso como convite e abertura de uma obra. Pode surgir no fim, como acontece nesses livros (agradecimentos idem), nunca no início. O cemitério literário das dedicatórias perdidas e apagadas com o tempo das páginas iniciais de múltiplas obras assombra na sua gigantez. De uma forma diferente, as epígrafes, no seu conceito normal, desaparecem e podem dar lugar a frases da minha autoria, ou referirem-se a obras fictícias. Encetar uma espécie de jogo para quem se interessar. As próprias contracapas exibem esta tendência. Não têm resumos mas sim outras frases retiradas do contexto original, uma camada extra.

Dez anos depois, referindo-me apenas a livros, temos dois concretos a seguirem as mesmas pisadas. O adiado, em eterna construção desde 2016 e referido aqui algumas vezes. Este é consideravelmente diferente de incursões passadas ou mais recentes no blogue, encerrando dentro de si dois ou mais livros na forma e conceito. Pretende também levar mais longe o convite inicial, as teias da narrativa. O segundo é uma ideia recente de compilar alguns dos textos soltos partilhados neste espaço com outros inéditos. Datas de término são sempre uma incógnita. Acabar o conteúdo, rever, ponderar a eventual publicação, trabalhar a parte gráfica. Daqui a um mês, mais dez anos, ninguém sabe. Só a certeza de não existirem dedicatórias. No início.
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