Nina


Contexto: O que vão ler, foi escrito recentemente no decurso de um dos trabalhos propostos num módulo do curso profissional de técnico de multimédia que ando a terminar, em que nos era pedido o seguinte:

"Produzir uma autobiografia criativa/imaginária de um animal ou de um objecto."

Na hora, perante uma ideia que já pairava há algum tempo na minha cabeça, uma necessidade interior, foi este o resultado, um relato na primeira pessoa, imaginário. Em conjunto com o trabalho final de curso, esta foi outra das formas que encontrei para a homenagear e para expurgar uma dor contínua, que tem dias melhores, outros piores, mas sempre presente, mais atenuada, ou menos, consoante o momento. Uma elegia, em estado bruto, de nudez.


Nina

"Primavera de 1994, ou Verão, ou Outono, não sei bem já, a memória vai-me pregando partidas com a idade, sei que estava destinada a morar com um casal de pessoas, um contacto da família. O homem sei que tratava dos nossos seguros, a mulher não faço ideia. Nasci por volta dessa altura, acompanhada de dois irmãos, um branquinho como a neve e o único de quem me lembro vagamente. Brincalhão, era a minha alegria nesses primeiros meses de vida.

Os cães estão hoje a fazer mais barulho do que o habitual, devemos ter visitas, alguém para almoçar provavelmente, um fenómeno que fui notando ser muito normal neste local. Ah, já me esquecia de o mencionar, estou numa quinta, nasci aqui, dizem-me que para os lados da Moita, rodeada de imensos animais e natureza.

O meu irmão está novamente aos pinotes, faz-me rir e gosto de lhe imitar os jeitos e traquinices, anda de volta de uma pessoa, penso que chegou naquele automóvel momentos antes, os cães estão agora mais calmos. Noto que se aproxima de mim, alguém dizendo-lhe que estava ali a irmã, uma gatinha com pêlo branco e manchas pretas e laranjas na cabeça e no corpo, com cauda de tartaruga, como se tivesse saído de um balde com várias tintas. É um rapaz e, ao contrário das outras pessoas, não lhe consigo ver os olhos, parecem-me tapados, pode dizer-se que foi amor à primeira vista, o cliché impulsionado pelo mistério e desafio, queria ver o que se escondia ali.

O rapaz pegou-me ao colo e deitou-me nas pernas dele, as mãos passando-me pela cabeça e pescoço, descobri pela primeira vez o que era ronronar, nuns sons tímidos a soltarem-se dentro de mim. Nunca aprendi muito bem esta arte, nem a de miar com força, factor que se iria manter para o resto da minha vida, mas ao mesmo tempo, comecei aqui a comunicar de uma forma mais humana. Percebi durante o dia que este rapaz era filho de uma das pessoas que habita nesta quinta, por sinal de uma das mais calmas, e que ele olhava para mim de uma maneira especial, dividindo a sua atenção pelo meu irmão, que continuava eléctrico. Percebi também que hoje seria o dia em que me iria separar dele e que ambos iríamos viajar para as nossas novas casas, o que me deixou triste, tendo sido a última vez que o vi. Anos depois ficaria a saber que ele fugiu da casa para onde foi e que nunca mais foi visto.

Entre a despedida do meu irmão e o sol que se ia pondo a pouco e pouco, ouvi o rapaz a falar com o pai, já que eu continuava nos seus braços, dizendo-lhe que ia ficar comigo, assim, com firmeza e uma confiança e paixão que me fez gostar ainda mais dele logo ali.

Ao contrário do que pensava horas antes, aquele automóvel não era o dele, mas sim de quem lhe ia dar boleia, visto que nos preparávamos para viajar de outra maneira até sua casa. Ele aconchegou-me numa caixa de cartão, com uns furos estrategicamente colocados para poder respirar e lá fomos nós. Nunca me esqueci da primeira vez que chegámos ao porto do Barreiro e do aviso de outra pessoa para o rapaz antes de embarcarmos, dizendo-lhe que eu tinha uma das patas de fora.

Estar com ele prometia aventuras e eu, que nunca tinha visto um barco na vida, depressa me apercebi disso. Ele retirou-me da caixa e fascinou-me a água, as ondas, as gaivotas, ao mesmo tempo que o frio me ia fazendo espirrar, uma das vezes até lhe sujei o casaco mas ele não se importou, limpando-me o nariz com ternura e fazendo-me festas na cabeça com a dele.

Ver Lisboa pela primeira vez foi um choque, aquelas pessoas todas, o movimento, o stress, os empurrões, foi um contacto inesperado, uma cidade como não tinha tido a oportunidade de ver antes. Seguimos a pé durante uns minutos e conheci outro meio de transporte, o Metro, que me aterrorizou com o barulho agudo das rodas nos carris, as portas e toda uma claustrofobia que perturba, mas estive sempre protegida e notava que o rapaz me agarrava nestes momentos de outra maneira, ainda mais protectora. Como se não bastasse, mais uns minutos depois e conheci outro meio de transporte, o comboio, que me pareceu na altura como um Metro que se deslocava à superfície, levando-me a ponderar onde morava este rapaz afinal, que nunca mais chegávamos ao destino.

Cacém, terra estranha, só prédios, uma movimentação e densidade ainda mais acentuada de pessoas, chegar até ao andar dele requeria o uso de um elevador, só experiências novas, começava a não aguentar a ansiedade. Mal me abriu a porta daquele 9ºDTO, pousou-me no chão e deixou-me investigar por mim a casa. Tímida, decidi deitar-me debaixo do calor da luz de um pequeno candeeiro situado numa mesa de dimensões reduzidas na sala de estar. Foi aí que acabaria por conhecer a mãe do rapaz, deliciada quando me viu assim que chegou a casa, tão pequenina e assustada.

O rapaz chamava-se e Nuno e a mãe passei a tratá-la por dona Amélia, viviam juntos nessa altura, estando com eles outra pessoa, um homem, que gostava de tentar brincar comigo ocasionalmente, mas que tratava mal a mãe. Os gritos e a violência eram uma constante, não gostava do que via nem daquele ambiente, o Nuno passou a ser um refúgio disso e gostava dos mimos que ele me dava.

Os meus primeiros aniversários, a primeira vez que estive com o cio, as idas iniciais ao veterinário, as brincadeiras, o dormir no pescoço dele, as memórias dos primeiros anos mostram-me um rapaz que deixou de sair e que parou de ouvir música alta para me acompanhar passo a passo no crescimento. Tivemos as nossas desavenças normais e cheguei até a tentar tirar-lhe um dos olhos, fascinavam-me e nunca me esqueci da primeira vez que os vi realmente. O brilho, aquele castanho, o olhar embevecido para comigo, uma ternura.

A curiosidade sempre bateu mais forte e os primeiros tempos na casa levaram a ter alguns episódios caricatos, como a queda na fritadeira do óleo nos primeiros dias. Felizmente já estava frio, mas o susto foi tal que andei a correr por todas as divisões e o óleo ia desde as mantas da cama até aos locais mais recônditos. Este incidente acabou por mostrar o amor que o Nuno e a dona Amélia nutriam por mim já nessa altura, no banho cuidadoso para me limparem o pêlo e o corpo, uma paciência de santos, enquanto me debatia na banheira e ia chorando como uma criança, usando as palavras que me disseram na hora.

Com o avançar da idade, a minha intolerância para com portas fechadas agravou-se e era normal verem-me a correr e saltar com o corpo contra as mesmas, o que assustava as pessoas em casa devido ao estrondo. Andar aos pinotes e andar de lado com pêlo eriçado pela casa também era uma constante, com o rabo inchado assemelhando-se ao de um esquilo, sempre fui um pouco doidinha confesso. A fixação e obsessão que mantinha com fiambre, pinhões ou pelo cheiro das azeitonas, também não ajudava nada, mas a comunicação que estabelecemos desde início ajudou a ultrapassarmos as dificuldades e a entendermo-nos cada vez melhor. Tinha um miar diferente para cada ocasião, fosse para pedir peixe, mimos, fiambre, atenção ou para indicar onde estava um brinquedo, chegando ao ponto de saber dizer onde estavam os comprimidos que tinha mandado para baixo do frigorífico, ou máquina de lavar, momentos antes por exemplo. Com o tempo até aprendi a abrir portas de armários e outras semelhantes, o que sempre foi levado a bem e com risos por todos. Não iria demorar muito tempo a existirem algumas mudanças entretanto na casa, especialmente em quem morava lá.

Apesar de nunca ter gostado particularmente das pessoas com quem a dona Amélia ia dividindo a vida, acabavam por me ser largamente indiferentes, já as do Nuno, metiam-me em depressão regularmente, assim como as suas idas de férias. Não aguentava lá muito bem as saudades do calor daquele corpo e pessoa, ficava dias sem comer no canto da sua cama. Numa dessas fases, ele passou a viver praticamente em Lisboa com uma rapariga e isso, quase que deu cabo de mim e da nossa relação, já que raramente paravam no Cacém. Uma das vezes até tentei cortar, muito discretamente, um dos pulsos à moça quando me levaram ao veterinário. Ela é tão meiguinha e gira exclamava a veterinária, quando ao mesmo tempo a rapariga tentava controlar o sangue que lhe saia do pulso sem ninguém se ter apercebido do que passou.
Como em tudo, a vida traz com ela as suas mudanças com o passar dos anos, o Nuno começando outras relações que apresentavam uma outra dinâmica e uma vivência mais pronunciada em casa, ou a perda de um dos seus empregos posteriormente, fizeram com que passássemos a estar cada vez mais tempo juntos, eu tornando-me oficialmente a sua companheira e estabelecendo uma relação de obsessão compulsiva com ele. Ninguém se podia aproximar sem a minha autorização e, mesmo assim, eu tinha de estar sempre presente. Dormir, só comigo no meio ou do lado dele, encostado ao seu corpo, braço ou pescoço. Alimentávamo-nos um do outro.

Aos 7 ou 10 anos (não me lembro muito bem), fui diagnosticada com insuficiência renal, o que aparentemente é normal nos felinos, no entanto a minha vivacidade continuava, era a alegria da casa e não deixava ninguém ficar deprimido. Comecei a desenvolver ainda mais manhas nesse sentido, recebia-os à porta com um miar característico, enrolava-me nas pernas deles, ronronava, pedia-lhes atenção imediata e deixava-os com um sorriso, mesmo nos piores dias. Por esta altura deixei de poder comer comida seca e ração, fazia-me vomitar, deixei também de comer muitos dos alimentos que eles me davam dos próprios pratos à refeição. Lembro-me de quando podia tentar engolir os fios de massa compridos e ficar só com uma pontinha de fora da boca, de eles me puxarem depois a massa do estômago como já tinha acontecido com novelos de lã. Não sei porquê, mas é daquelas memórias que ficou e que me faz sorrir, como o é também o meu hábito de estar sempre de língua de fora desde pequenina, o que acabaria por se manter até à idade adulta.

Havia qualquer coisa de encantador naquele rapaz, não era de muitas palavras, tinha o seu mundo muito próprio, eu estando lá no meio, sempre, com atenção redobrada quando precisava. O vestir o pijama prontamente muitas das vezes quando chegava a casa, apenas com a finalidade de me dar colo imediatamente, era apenas um dos muitos pequenos pormenores que me fui apercebendo. Começava a custar-me dar saltos e correr atrás de fantasmas, os meus rins a dar sinal de si, nunca fui gorda e sempre fui muito pequenina, mas não conseguir digerir certas comidas ou mesmo qualquer uma da melhor maneira, estava a afectar-me já o corpo, agora mais magro.

As idas ao veterinário não traziam grandes novidades, as últimas até foram muito incomodativas, entre o soro fisiológico e a urgência de levar um clister por me custar a fazer as necessidades. Ficava dias sem o conseguir, sentia uma tristeza crescente em mim, no Nuno e na dona Amélia.

O Natal de 2009 e final do ano, marcou uma das últimas alturas em que foi possível verem-me com aquela minha energia muito típica, existindo até filmagens do meu olhar alucinado enquanto brincava e comia pinhões obsessivamente em cima da mesa, esta preparada com repastos vários nestas alturas do ano. Para uma gata de 15 anos, exibia uma jovialidade de fazer inveja a muitas, ninguém me dava essa idade aliás, como comprovado nas minhas idas ao veterinário, as pessoas sempre muito simpáticas e encantadas comigo. Internamente, lutava cada vez mais com a doença, disfarçando o mais que podia.

O início de 2010 trouxe um declinar rápido da minha saúde, as atenções para comigo redobradas e, entre Março e Abril, eu e Nuno mantivemos alguns diálogos silenciosos, comunicando com os olhos. Ambos sabíamos que estaria a chegar a hora de partir, mas nunca se está preparado. Numa das últimas noites, ambos percebemos que já não aguentaria muito mais, disse-lhe isso naqueles olhos castanhos. No regresso a casa de um dos seus trabalhos nocturnos como DJ, ele encontrou-me semi-paralisada na sua cama, tombada, um princípio de trombose. Conseguiu reanimar-me com mimos e massagens, mas já não sentia muito bem o corpo, mexe-lo era uma luta constante com as dores e falta de força. No dia seguinte passei a sofrer de incontinência, a dona Amélia e o companheiro tratando de mim com uma paciência amorosa, enrolando-me em cobertores e mimos. O Nuno teve curso nesse dia, o que lhe ocupava as manhãs, esperei por ele.

Nesse dia já estava num estado lastimável, tinha desenvolvido tumores internos que se manifestaram mais pronunciadamente nesta altura, aparecendo externamente em várias partes do corpo, com destaque para a boca, o que provocava um mau cheiro constante, mesmo sendo limpa e lavada prontamente. É nestas alturas de enfermidade, de doença, também, e ainda mais, que se percebe como alguém nos ama. Aguentei as últimas forças para o regresso do Nuno. Poucas horas depois, senti a chave na porta.

Prostrada no chão, ninguém me conseguia levantar, mas aquele som fez-me brilhar os olhos mais uma única vez, quando chegou até mim, miei-lhe muito baixinho, uma das patas em cima das suas pernas, ele percebendo imediatamente que queria ser pegada ao colo uma última vez, sentir o conforto daquelas pernas e corpo. Ambos percebemos que tinha chegado a hora, almoçámos e fomos até ao veterinário, o prognóstico era naturalmente triste. Os danos internos já eram tais que quanto muito teria um ou dois dias de vida e estaria sujeita a contorcer-me em espasmos até deixar de respirar, o que só iria aumentar ainda mais o sofrimento. Os meus olhos disseram-lhe para me deixar ir, ficámos eu, ele e a dona Amélia, a tarde inteira no veterinário, na parte exterior, uma espécie de quinta com outros animais, os choros eram compulsivos, a decisão passando por darem-me uma injecção final para não sofrer mais, ou arriscar a outra solução, igualmente pouco animadora, de definhar até ao fim. Disse-lhe nos olhos para optar pela primeira, não foi fácil para ambos, escondi depois a face a tarde toda, não o conseguia ver nem encará-lo. Ele esteve sempre comigo até ao fim, a mão na minha barriga e a sentir-me as pulsações lentas e aceleradas do coração, mesmo aquando da injecção horas depois, só ele, obrigando a dona Amélia a sair da sala nesse momento.

Apertei-o uma última vez e falei-lhe, com um miar pequenino, o coração na sua mão, a vida a desacelerar, gosto dele. Tive uma vida boa, excelente até, adoro estas pessoas, não, amo.

A Nina faleceu a 9 de Abril de 2010, tinha 16 anos de idade."

8 comentar

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Sofia
admin
23 dezembro, 2010 00:27 ×

Belo e comovente, dá para escutar o ronronar do outro lado do espelho e as muitas mais peripécias que ela tem para contar.

Uma sentida homenagem.

Fizeste-me chorar.
§

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Azelpds
admin
23 dezembro, 2010 00:39 ×

Foi um pouco estranho ter escrito e feito isto no contexto que foi, mas mais que uma ideia, era algo que já estava para ser libertado há algum tempo.

Quando vi e li o resultado, o coração apertou-se ainda mais, tendo custado bastante na hora a escrever e, posteriormente, a ler. Ainda custa, mas a reacção na altura do formador, incentivando a que partilhasse e pedindo-me se poderia usar o texto em aulas futuras para mostrar a outros formandos, no contexto de autobiografias ou escrita criativa, acabou por me fazer sorrir e perceber que este texto devia ser partilhado fora do âmbito do curso também. Mesmo assim, demorei um pouco a pegar nele novamente, a procurar imagens diferentes, a reviver momentos nessas fotos novas, que acabaram por não ser iguais às da versão do curso.

Sensação estranha, mas bom teres gostado, comentado e chorado, é positivo, penso. :)

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elsafer
admin
23 dezembro, 2010 12:51 ×

simplesmente ... bonito.

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23 dezembro, 2010 21:34 ×

Nuno, partilhei do mesmo sentimento da Sofia, ja tive uma experiencia parecida com uma gata que tive e cresceu comigo, na casa dos meus pais, mil peripecias que passamos juntos, mas passemos a frente, resumindo, se te disser que ela perto dos seus 20 anos esperou por mim nos ultimos dias, esperou que eu pudesse passar por la, pois ja nao vivia por l´´a, esperou assim, para dar o ultimo suspiro de vida nesse momento e isso ficou-me para sempre.
Mas Nuno, gostei imenso do teu texto e sentimento, isso e o que importa no momento.
Abraço.

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Azelpds
admin
24 dezembro, 2010 00:22 ×

Os animais têm dessas coisas muito particulares, mais humanas até que muitas pessoas que conhecemos. :)

Obrigado eu pelas palavras, outro grande abraço deste lado também. :)

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Manuela
admin
01 janeiro, 2011 19:22 ×

Nuno, fizeste-me quebrar o silêncio:)O teu texto está comovente. Penso que só mesmo quem tem animais consegue partilhar destes sentimentos. Curiosamente este é um exercício que eu faço frequentementemente com os meus alunos, colocarmo-nos no lugar do outro e descrever emoções, sensações.
Obrigada por este momento.

Beijinhos
Manuela

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Azelpds
admin
02 janeiro, 2011 16:22 ×

Obrigado eu pelas palavras e fico contente que as minhas tenham feito quebrar esse silêncio que me apercebi e que é necessário por vezes, seja qual o motivo, nem que seja para reflectir. :)

Apesar do conteúdo deste texto, acabou por ser um exercício que também gostei de fazer, além de ter sentido que era necessário na altura.

Obrigado mais uma vez. :)

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