Tranquilidade em Fuga

"Vestidos pretos, com folhos, tons de magia e sapatos de bailarina, apagamos o tempo necessário para ficarmos a conhecer a pele, clara, nas cicatrizes de passados que brincam às escondidas, quando o coração deixa de estar à venda e disponível.

Somos crianças, no sonho de mudar o mundo usando os nossos corpos de adultos, nas respirações que se confundem no escuro do quarto iluminado de músicas, de bonito, de perfumes que não desejamos perder nos lábios em estado líquido.

Olhos resplandecentes, neste momento dormia contigo, se pudesse, até aos sinais do dia seguinte, naqueles cigarros que se acendem num suspiro, nos dedos que se saboreiam num tilintar de saliva, na urgência de te sorver o gosto até que nenhum banho ou tortura me pudesse tirar o teu aroma de dentro de mim. Credo, como sabes bem.

Pernas dormentes, caminhamos ao encontro de qualquer coisa sem definição, daquelas que nos matam quando a queda é plena e recheada de imenso, na tranquilidade em fuga que procura um lugar melhor na doçura da impaciência, ali, no meio de nós, sem segredos, sem silêncios constrangedores, sem mácula, só nós, assim, nos apertos de prazer que nos fazem doer o peito. Cuspia-te agora."

Nuno Almeida, Crónicas, 2010

3 comentar

Click here for comentar