Mesa-de-cabeceira: Rute Castro, Cartazes Húngaros e Gonçalo M Tavares

Rute Castro - O Sangue das Flores (Artefacto, 2014)

“as ruas ajeitam-se no seu sono subserviente,
têm rajadas de bocas dilaceradas nas suas vontades,
as ruas, as pisadas, iniciam cedo o enterro dos dias,
vêm em violência de círculo em espada,
roda do que nos tem pela fome.

este lugar é precipício da vontade,
é feito das mais altas patentes de amordaçar selvagem,

tem a silhueta de uma oitocentista, de sombra na cara,
arreganhada de espanto pela própria voz,

gritar é pulsar que não pode.”


(in “8”, p. 19)






OSangue das Flores, editado em Outubro de 2014, é o primeiro livro de poesia de Rute Castro, mas está longe de ser a primeira incursão da autora no campo da Literatura. Vencedora do prémio António Aleixo quando tinha apenas catorze anos (entregue na altura pela escritora Lídia Jorge), foi também finalista, em 2012, do concurso Fnac Novos Talentos de Literatura com o conto Sobre os passos que matam. Por coincidência, acabaria por conhecer a sua escrita um pouco antes do lançamento oficial (em que estive presente) deste livro de que hoje vos falo, através do blogue que a autora mantinha. E, desde então, tentei ficar atento porque gostei imediatamente do que li.

Escrever sobre poesia é um exercício ingrato. É falar de sensações, dos mistérios das palavras e frases que entram em nós sem pedir licença, de diálogos silenciosos. É partilhar um pouco de um processo íntimo e solitário como é o da leitura. Neste caso sinto que o livro tanto fala connosco como dentro de si mesmo, um percurso de descoberta identitário de uma maturidade exemplar para uma obra de estreia e que deixa pelo caminho muito do que hoje se encontra no mercado. A beleza de certos textos e excertos chega a ser fulminante. Agrada-me esta dualidade, esta pluralidade que desarma, a desordem rítmica dos versos, o contacto na pele.

"o tanque lava a boca do estado louco das mulheres que se deitam
nas horas vagas, com as andorinhas nos tectos,
no segredo de nos levarem com elas, por termos pés rápidos
de guerra e corrermos muitos entre a desgraça do lado
e cheirarmos à carne, à nossa, que nos vem pronta no primeiro choro."


(in “27”, p. 39)

Para adquirirem o livro, podem tentar através da editora, ou procurando nas livrarias. Nestas últimas, poderão ter sorte nas mais pequenas como até em cadeias de lojas como a Fnac.

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Bakos Katalin (org.) e Scholz László (org.) - A modern magyar kereskedelmi plakát: 1924-1942 (Pentagraf, 2009)


Para os amantes de design gráfico, este é um dos melhores livros que poderão adquirir no que toca a cartazes húngaros ou para quem gosta desta temática. É, também, um dos poucos livros disponíveis com textos em inglês e, neste caso, igualmente em espanhol.

Esta publicação, que se apresenta com três títulos referentes às três línguas em que se encontram os textos no seu interior, El cartel comercial moderno de Hungría / A modern magyar kereskedelmi plakát / Modern commercial posters in Hungary, é o catálogo das exposições que já aconteceram com o mesmo nome, a primeira das quais em 2009, na cidade de Valência, em Espanha.


Se o destaque vai, sem sombra de dúvida, para as 102 reproduções maravilhosas de imensos cartazes em página inteira, a cores, também há que salientar a inclusão de algumas fotografias de época e textos sobre a história deste período. É, sem grande surpresa, um dos períodos que mais me inspira a nível de design gráfico e estão aqui alguns dos melhores trabalhos que já vi até hoje. A felicidade de os termos visto ao vivo, numa exposição em 2014, na cidade de Budapeste, na Hungria, só acentuou ainda mais o fascínio por estas obras. A imaginação por detrás de muitos destes trabalhos é fantástica, com resultados primorosos, não surpreendendo que alguns destes artistas tenham frequentado a famosa escola alemã Bauhaus, um dos grandes expoentes Modernistas no que toca a design gráfico, artes plásticas e arquitectura de vanguarda, após serem forçados a emigrar por razões políticas.

Adquirir este livro pode ser quase impossível sem recorrerem à Internet e, mesmo assim, nada garante que o enviem para Portugal. Em Budapeste, na Hungria, a loja do Museu de Artes Aplicadas foi onde o adquirimos por altura da referida exposição que visitámos. Custou cerca de 13€. Podem sempre tentar enviar-lhes um e-mail a perguntar sobre a disponibilidade do livro e possibilidades de aquisição. Para quem mora em Portugal, a loja online Wook parece tê-lo, apesar de estar a um preço mais caro.


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Gonçalo M. Tavares - Aprender a rezar na Era da Técnica (Caminho, 7ª edição 2013)

Este autor, considerado por muitos (e com razão) como uma das vozes contemporâneas mais fortes da Literatura Portuguesa, é presença assídua aqui em casa e nas nossas conversas de café. Isso acontece devido ao trabalho docente da Patrícia e, também, por causa do doutoramento que ela está a realizar. Recentemente, tivemos até oportunidade de conversar brevemente com o autor sobre alguns assuntos, um deles o cartaz que realizei, em 2014, para o lançamento oficial da edição húngara deste preciso livro. Este romance, editado pela primeira vez em 2007, faz parte de um conjunto de quatro livros intitulado “O Reino” – Livros pretos.

“Não tratamos aqui de sentimentos, dissera uma vez Lenz, tratamos de veias e artérias, de vasos que rebentam e que devemos recuperar, de inchaços que soltam substâncias que vindas do interior parecem no entanto estranhas ao corpo.”

(in Aprender a rezar na Era da Técnica, p. 26)


O livro centra-se na personagem de Lenz Buchmann, cirurgião e, posteriormente, político. É um retrato sombrio sobre a condição humana em que o medo tem um papel fulcral na sociedade onde decorre a acção. Não se esperem sorrisos com esta leitura mas sim desconforto. Este último surge perante o contacto com a natureza desprezível e vil de Lenz, a frieza da narrativa, distante como se nenhuma emoção fosse permitida sob risco de contaminar os pensamentos e acções do protagonista, mas também no eventual sentimento contraditório de nos podermos identificar com ele, em particular no final do livro.

"O louco, apesar do seu descontrolo na relação com o mundo, merecia mais respeito do que todos os outros, pois pelo menos nele conseguiam vislumbrar uma espécie de orgulho individual que, se não o permitia comandar os outros homens, pelo menos permitia-lhe não lhes obedecer."

(in Aprender a rezar na Era da Técnica, p. 148)

Para quem ainda não o fez, Aprender a rezar na Era da Técnica é relativamente fácil de encontrar nas livrarias, se bem que as novas edições deste conjunto de livros (“O Reino”) se apresentam agora, curiosamente, com capas roxas. É um livro que requer ser lido com especial atenção, com tempo para reflectir no que o autor tem para dizer (ou sugerir, visto tratar-se de um autor pouco directivo), em que por vezes os pormenores e pensamentos mais profundos escondem-se nas aparentes banalidades do quotidiano.