Curta-Metragem

"A porta entreaberta deixa passar uma luz muito ténue, iluminando as sombras dos passos que se aproximam de teu vulto escuro, tornado vivo pelo branco do monitor onde debruças o teu corpo, ombros e braços arqueados para trás. Um copo ao lado da cadeira, as canetas guardadas num local próprio, os papéis espalhados por cima do teclado, tens confusão e doçura meticulosa contigo, os lábios fervendo nos beijos a convite do teu pescoço claro, tão desprotegido. Adoro oferecer-lhe protecção.

Viras-te para mim e estou maior do que o normal, no cigarro preso com arte em dois dedos, círculos a brincar com o ar, imperfeitos, camisa cinzenta clara adornada por uma gravata preta fina sob calças da mesma cor que esta. A cartola que me cobre a cabeça, escondendo o rosto neste quarto de candeeiros a dormir, é onde gostas particularmente de deixar o olhar ascendente, quando sentes a vida a tremer com os teus pecados. Espera... ainda não, dizes...

Chega-te um pouco para trás, assim, só mais um pouco, deixa-me ver-te, senta-te no sofá, cruza as pernas e mete o cigarro à boca...

Sim, assim, continua, deixa-me brincar um bocadinho agora com o rosa das minhas pernas, trémulas, sem frio.

Em rebeldia, aproximo-me de ti, cinzas espalhadas, ofereces-me a palma da mão direita para apagar a ponta do cigarro à deriva, desculpa fácil, partilhas de controlo, viro-te de costas para mim, mão em mão, mão em luta com cabelos, pernas afastadas, nunca me pareceste tão bonita como agora."

Nuno Almeida, Crónicas, 2010

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elsafer
admin
26 janeiro, 2010 10:57 ×

mais um momento de intimidade... entre paredes que nos descrevem os sentidos, a dois e num só.

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Azelpds
admin
26 janeiro, 2010 11:01 ×

Personagens familiares, talvez. ;)

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